UM NOVO E PERIGOSO COMPETIDOR

Recentemente foram anunciadas mudanças de seis produtores de calçados atualmente trabalhando na China, sendo quatro de Taiwan e dois da Coréia do Sul, para a Indonésia. Motivo? Os custos chineses estão subindo, e enquanto na China hoje um operário ganha em média US$ 160.00 por mês, um na Indonésia ganha de US$ 100.00 a 120.00.

Além disso, os produtores que vão mudar dizem que na Indonésia tem muito menos burocracia oficial e quase não existe pirataria, que é um dos maiores males entre os produtores chineses de qualquer mercadoria. De acordo com mr. Aprisindo, chefe do comitê de coordenação de investimentos, há muito mais produtores de calçados pensando em transferir suas operações para Indonésia, mas que a escassez e aumento de preços de energia elétrica nos anos vindouros poderá impedir que estas idéias se concretizem.

Seja lá como for, temos uma prova que as medidas, como tarifas extras nos impostos de importação, cujo sentido é impedir a concorrência desleal, tem um efeito paliativo e que toda ação desperta uma reação. Orientados por este pensamento, daqui a pouco, todas as importações seriam sobre-taxadas ao ponto de criar uma guerra comercial com o resto do mundo, sem nenhum efeito prático a não ser retaliação em massa, que seriam suportadas como sempre pelos pobres consumidores.

No mundo globalizado, onde as economias dependem cada vez mais uma da outra, usar os métodos dos séculos passados será tão producente como tentar voltar a iluminar as ruas com lampiões a gás. O caminho é outro. O caminho se chama competitividade e capacidade. A começar pelos nossos governantes. Criar déficits monstruosos (a dívida interna do Brasil já passou de um trilhão de reais!) e financiar esta gastança com aumento de tributos, sem sobra de dinheiro para melhorar o “custo Brasil” investindo na infra-estrutura, acabar com a burocracia custosa e inútil, rever a legislação trabalhista e os programas sociais, aonde todo mundo entra, mas não se tem notícia de ninguém que tenha saído etc. etc. etc. Temos uma nova presidenta e abramos um crédito para as suas realizações. Tomara que não repita o refrão, que todas as mazelas são culpa da “zelite”.

Disse acima “a começar pelos nossos governantes”. Continuando, tenho que dizer “e passando por nossos empresários”. Não tenho conhecimento para avaliar o comportamento nos outros ramos industriais. Mas pelos pronunciamentos dos seus dirigentes, posso deduzir que as mazelas que prejudicam a indústria de calçados, estão presentes em todos os outros ramos industriais.

Como se desperdiça na indústria de calçados! Desperdício de tudo – materiais, insumos, energia, mão-de-obra, tempos – como dizem os americanos: You name it, it’s there! Ou seja: o que Você pensar está lá – em tradução livre. Além da carga tributária, portos ineficientes, rodovias ou muito caras ou rebentadas, legislação trabalhista punitiva contra as empresas – ainda as empresas nacionais têm que lutar contra o contrabando, contra a pirataria, contra a falta de crédito (embora a TV esteja cheia de propaganda oficial, de como é fácil ser empresário no Brasil), juros extorsivos etc. etc.

Mas falemos de desperdícios para provar que não falo em tese, mas posso documentar o que escrevo. Outro dia numa fábrica, discuti com o proprietário (em bons termos, naturalmente), o desperdício da matéria prima. Mostrei para ele que se ele perdesse um centímetro quadrado de couro por par (produz 2.500 pares/dia) com a produção dele isto representaria algo mais que 50 metros quadrados de vaqueta. Quando ele me disse que a minha conta estava muito errada, descobri que como bom francano ele estava confundindo um centímetro quadrado com um decímetro quadrado, medida de que nunca ouvira falar. E ainda acham uma ofensa, quando comparam a escolaridade do Brasil com a do Zimbábue.

Que fique bem claro: um centímetro quadrado tem tamanho aproximado de uma unha. Um decímetro, segundo o dicionário, é décima parte de um metro. Sendo quadrado, são dez centímetros por dez centímetros = cem centímetros quadrados. E pronto. Ou seja, quando alguém lê a marcação da pele da vaqueta 2,16 como dois metros e dezesseis centímetros, está redondamente errado, porque são dois metros e dezesseis decímetros quadrados.

Como falar em economias, se nem sabemos ler os números, ou melhor, projetá-los na sua grandeza? Quem pára para pensar que, se esta fábrica perdesse uma, só uma grama de cola por par, isto representaria mais de meia tonelada de cola por ano? E se forem duas ou três gramas? Estes são tipos de desperdícios que não acontecem em nações, cujo modo de vida era durante milênios uma pobreza indescritível.

E com estes povos hoje competimos. A Índia, que todos temem ainda está esquentando as turbinas. A hora da verdade para as indústrias de transformação, de calçados inclusive, chegará quando estas nações – Índia, Paquistão, Bangladesh – entrarão para valer na competição mundial. Com base educacional no sistema inglês, que durante duzentos anos colonizou e trouxe conhecimentos ocidentais para estas nações, com a preparação tecnológica que, principalmente a Índia, está desenvolvendo, tenho sérias dúvidas sobre como vamos nos defender, levando-se em conta que a globalização está avançando inexoravelmente.

Há muito trabalho a ser feito neste sentido. A pergunta até hoje sem resposta é: quem será encarregado, ou de onde vem o impulso de mudar a mentalidade ou oferecer a ferramenta àqueles que sentem a necessidade e a vontade de mudar e não sabem o que fazer?

Um dos desperdícios acima apontados é o do tempo. E o tempo disponível se escoa e nada de prático acontece. O que estamos esperando?

Zdenek Pracuch
20/12/10