O PESADELO CHINÊS

Faz exatamente um ano, que a Abicalçados entregou em Brasília um estudo sobre suposto dumping praticado pela China na exportação de calçados para o Brasil. Após isto vieram as denúncias sobre a triangulação de exportações via países contra os quais o Brasil não impôs a sobretaxa de importação.

Nada aconteceu até hoje e, com quase certeza, nada acontecerá. E se acontecer, não tenham dúvida, os chineses vão encontrar os meios de trazer os calçados para o Brasil de qualquer maneira. E atrás dos chineses virão outros asiáticos, porque principalmente  nas indústrias de transformação, que necessitam de um grande número de mão-de-obra barata e de pouca qualificação não temos como competir. Mais ainda com a nossa legislação tributária e trabalhista, uma infra-estrutura em petição de miséria e um governo que legisla mais orientado por ideologia do que pela economia.

Não podemos esquecer o fato de que a China é hoje o parceiro comercial número um do Brasil. Não podemos irritar o Big Brother com algumas medidas protetoras das nossas indústrias, porque irritado, poderia comprar minério da Rio Tinto australiana no lugar da Vale, comprar soja na Bolsa de Chicago ou a carne argentina. Não podemos esquecer que o namoro com a China começou, quando o conselheiro do ex-presidente, o senhor Marco Aurélio (toc-toc-toc) Garcia buscava o apoio da China para conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Deu no que deu.

Ultimamente até que a indústria têxtil e de calçados saiu do foco de atenção. Os holofotes estão mais centrados na indústria eletrônica, de autopeças e, quem diria, até na indústria automobilística! Já podemos encontrar nas estradas automóveis chineses, coisa impensável até há poucos anos atrás. - A indústria nacional vai se tornar uma representante comercial das indústrias chinesas e nem vai demorar tanto. A desindustrialização é um fato consumado. Após a importação de componentes, materiais e semi-manufaturados será um passo pequeno para trazer produtos prontos. Já estamos inundados de celulares chineses ou com noventa por cento de componentes Made in China. Com os computadores, periféricos e tablets dá se o mesmo.

Semana passada admirei numa fábrica de Nova Serrana um sintético acamurçado de ótima qualidade, indistinguível do couro legítimo que um balconista sem escrúpulos ou mal instruído irá vender como couro. Para minha grande surpresa, fui informado, tratar-se de um produto importado da China. Bem, quanto a isso não há grandes novidades. Imitação de cristais naturais, zipers, bijuterias e semelhantes, importados, já fazem parte integrante das confecções e de calçados nacionais sem ninguém estranhar o fato.

Daí para importar os calçados semi-acabados é um passo. Aliás, senhor Milton Cardoso, quando justificou a compra pela Vulcabrás de uma fábrica na Índia, citou como exemplo, que os cabedais custarão setenta por cento menos que os feitos no Brasil. Para importar calçados semi-acabados, onde só vai faltar calcanheira, que será colada em Jundiaí será só  um passo.

A opinião de Antonio Brito, ex-governador do Rio Grande do Sul e ex-diretor presidente da Azaléia está cada dia mais visível. Numa entrevista ao Estadão declarou há alguns anos atrás que as grandes marcas vão sobreviver, mas que está com a pena das fábricas no Brasil. E já estamos presenciando este fenômeno.

O empresário nacional é um herói travando luta com a tributação, com os sindicatos, com a legislação que não para de criar novas normas e obrigações, cada dia mais complexas, custosas e difíceis de atender e entender. A desoneração da contribuição empresarial sobre a folha de pagamento, com a criação de uma alíquota sobre o faturamento beira o deboche.

Como é que vamos censurar o empresário, que no final, decide importar em vez de produzir no Brasil? Hoje estamos falando da China. É o espantalho do dia. Mas o que vamos fazer e dizer, quando a Índia entrar no mercado exportador para valer? Será muito mais perigosa em termos de competição do que hoje é a China.

A direção da Vulcabrás demonstrou grande previsão e sensibilidade estratégica, tendo optado por estabelecer se na Índia. O saudoso Nestor de Paula pretendia levar a Azaléia para China que, na época, estava mais favorável a esta mudança. Porém o crescimento de nível de vida, pressões por melhores salários o capitalismo comunista da China, hoje já está ameaçando a competitividade global chinesa em vários ramos industriais, em comparação com os vizinhos de nível de vida mais baixo, como é o caso da Índia.

Presenciaremos dentro do tempo previsível grandes embates na arena global pela conquista de fatias do mercado. Infelizmente, nada indica que o Brasil se conscientize deste fato. Estamos atrasados em todos os campos a começar pela educação, pelo Custo Brasil e até pela mentalidade “deixa estar para ver como é que fica!”

O que um empresário calçadista deve fazer? Não vou me repetir, já escrevi sobre isso muitas vezes e vejo com satisfação que já há empresários que estão trilhando esta estrada para a sobrevivência. Com a finalidade de trabalhar menos e ganhar mais, pela gestão do terceiro milênio, originalidade e perfeição.

Zdenek Pracuch
12/03/12