LIÇAO DE PORTUGAL
Frequentemente estou sendo solicitado para exercer futurologia, porque há pessoas que pensam que tenho o dom da vidência e consigo prever o futuro. Infelizmente não é nada disso. Oxalá fosse, quantas coisas poderia ter evitado, quantos aborrecimentos poderiam não acontecer mas, infelizmente, não é nada disso.
O que é necessário praticar, é não aceitar tudo o que é dito ou publicado pelo seu valor facial. Há necessidade de passar todas as informações, venham de onde vierem, pelo crivo da razão, pela observação e em boa parte pela experiência que a vida nos proporciona. Só depois desta análise criteriosa e ponderada temos direito de emitir uma opinião, que muitas vezes é usada para servir de orientação para as ações de longo alcance.
A pergunta que aparece com mais freqüência é sobre o futuro da indústria de calçados no Brasil e, consequentemente da indústria de calçados no mundo. Comecei a minha vida profissional há exatos setenta anos na Bata Shoe Organization na ex-Techecoslováquia. Tempo bastante para acompanhar a evolução e a involução da indústria de calçados pelo mundo.
Na década dos quarenta do século passado, a indústria européia e norte-americana eram fortalezas inatacáveis e o mundo se abastecia de calçados nestes dois continentes. Não eram só os calçados. Eram couros, componentes, máquinas, enfim todo o conjunto a serviço da indústria de calçados. Muitos francanos velhos ainda estão lembrados das máquinas americanas alugadas da United Shoe Machinery Company, das máquinas da Alemanha, as famosas Moenus, tanto de calçados como de cortumes e das tchecas da marca Svit.
Nada disso existe mais. E isso aconteceu no decorrer de duas gerações! Simplesmente, o centro de gravidade se deslocou do Ocidente para Oriente, no começo imperceptívelmente e depois com uma velocidade estonteante. Em menos de dez anos a outrora florescente indústria de calçados italiana foi varrida do mapa. E atrás dela se seguem em triste procissão as indústrias gregas, espanholas e portuguesas.
Sobre esta última quero escrever, porque na década dos noventa, através da trading sueca para a qual trabalhei permaneci muito tempo no meio desta indústria, fiz belas amizades e conheci pessoas que, provavelmente, nunca mais encontrarei, mas que nunca vou esquecer.
O declínio da indústria portuguesa de calçados é visível e documentado. Portugal tem hoje algo em torno de dez milhões de habitantes, ou seja, o mercado nacional é bastante restrito. Mas em 2001 a indústria portuguesa produziu 156 milhões de pares de calçados. Em 2004 esta produção já baixou para menos da metade, 63 milhões de pares. E em 2010 a estimativa é de a produção não passar de 45 milhões de pares.
Se o consumo per capita, nas condições européias é de 4 pares por pessoa, podemos dizer que Portugal hoje produz só para atender o mercado interno. O interessante é observar, que as grandes fábricas, por sinal, muito bem organizadas e equipadas, como Polistar, Eurosport, Guimar e outras, não existem mais. No lugar delas apareceram dezenas de fábricas pequenas, quase que artesanais, com produção limitada mas de alto valor agregado e uma flexibilidade que o mercado de hoje procura – para atender ontem a moda de amanhã.
Será que não há aqui uma receita de sobrevivência para a indústria de calçados brasileira? Nosso problema é mais complexo devido a uma tributação desproporcional, leis de proteção de trabalhador que desestimulam criação de empregos, infra-estrutura que, a rigor, não existe etc. etc. Parece piada, mas jornais publicaram uma declaração do ex-presidente, que doravante vai agir politicamente para promover ação política em prol das reformas tributária e trabalhista. Só agora? Por que não fez nada disto quando estava no comando das ações?
Portugal já influenciou, e bastante a indústria francana, sem que o Portugal ou Franca tivessem percebido isto. Quando o Geraldinho da Opananken voltou de Portugal, trouxe na bagagem o protótipo do Opananken que, com a ajuda da Amazonas, desenvolveu para um calçado de grande sucesso entre os consumidores. Hoje em dia há um grande número de fábricas em Franca, que em grau maior ou menor fazem deste tipo de calçado um sucesso de vendas.
Não será exagero dizer, que a partir do lançamento do Opananken, o conforto do calçado masculino passou a ser um requisito, que antes era solenemente desprezado em função da “beleza e elegância” das formas.
Como se pode ver, a globalização é uma realidade e entra na vida da gente e das empresas de um modo sutil, imperceptível, mas exerce uma influencia tremenda. Dizer, que não temos nada a ver com indústria portuguesa, seria fechar os olhos para a realidade. Nada nos protege contra o tsunami que poderá vir a qualquer momento, sem aviso. O melhor o que podemos fazer é adotar desde já um plano de ação que, baseado nas experiências já vividas por nossos colegas menos afortunados, nos permita uma sobrevivência segura e decente, mesmo em ambiente pouco favorável. – Não deixa de ser um desafio formidável!
Zdenek Pracuch
14/02/11