LUCRO OU PREJUIZO? - Parte 1
Ultimamente está na moda falar da gestão. Não há um discurso de ministro, onde não seja acentuada a necessidade de uma boa gestão, não há um discurso eleitoral onde não se fale da gestão boa ou má, a proposta do candidato ou a crítica à má gestão do adversário, as revistas de negócios estão repletas de artigos, de opiniões e de sugestões de como praticar uma gestão de sucesso.
Não deixa de ser patético, quando pergunto a um empresário, como fechou o mês, ou melhor, a semana, se deu lucro e quanto? E o capital de giro, engordou ou teve uma hemorragia? E recebo como resposta – não sei! E o capital, como é que vou saber?
O pior de tudo é que pelo cálculo prévio de custo, o lucro estimado, digamos, em quinze por cento, no balanço final é resumido para sete ou oito, por que? Porque dentro da empresa há fontes invisíveis, ou não detectadas, de prejuízos, que consomem o lucro dos departamentos lucrativos!
De fato, a gestão faz parte de vida de todos nos, seja em qualquer atividade, desde a senhora presidente, até um casalzinho que está começando a construir um lar. A gestão faz parte da nossa vida, quer estejamos ou não conscientes desta realidade. Por sorte, existem milhares de exemplos bem sucedidos que podem ser seguidos e imitados.
Na indústria de calçados temos um exemplo centenário de uma gestão perfeita, bem sucedida, específica para a indústria de calçados, com todas as suas peculiaridades. Trata se de uma empresa que foi fundada em 1894 e desde então continua crescendo sempre na mão da mesma família, embora sendo dirigida por uma equipe profissional de primeira categoria. Trata-se da Bata Shoe Corporation, com sede em Toronto, Canadá que produz, hoje mais de 500 milhões de pares por ano numa centena de fábricas espalhadas pelo mundo inteiro, com 6.000 lojas próprias, 80.000 colaboradores etc. etc.
Podemos dizer, sem medo de errar, de que se trata de um paradigma de gestão da industria de calçados. Em 1948 quando o governo comunista da, então, Tchecoslováquia desapropriou a empresa e descobriu o sistema de gestão, estendeu este sistema por Lei a todas as empresas do país, desde a Skoda (hoje Volkswagen) de armamentos pesados e de automóveis até a última mercearia.
No Brasil tivemos alguns exemplos de aplicação em várias firmas de grande porte, que aplicavam o sistema, ou por ter sido vinculadas a Bata, como a Alpargatas ou por ter aplicado o sistema. Podemos falar da Vulcabrás na época do senhor Pfulg, antigo colaborador da Bata na Suíça e de uma firma em Franca, que o aplicou na íntegra na década dos anos sessenta e se distanciou de concorrentes, graças à sua aplicação.
Esta empresa depois, na ânsia de sempre inovar, o que é uma atitude louvável, mas neste caso enveredou pela consultoria das firmas que atendiam Petrobrás, General Motors, Volkswagen e outras, cuja filosofia, o mercado e a própria concepção do negócio é diferente, perdeu a linha da conduta que a conduziu ao sucesso e hoje, praticamente, não existe mais.
Mas, afinal, de que consiste o sistema Bata de gestão? Pode ser resumido em poucas palavras: A empresa é segmentada em centros de custos pelas atividades. Compras, almoxarifado, corte, pesponto, montagem, administração etc.. Cada uma destas unidades é considerada contábil e administrativamente como se fosse uma empresa autônoma e seu supervisor o empresário, que compra matéria prima ou produto semi-elaborado do centro de custos anterior, o beneficia e o vende com um sobre-preço para o centro de custos seguinte.
Parece complicado? Mas é de uma enorme simplicidade como, aliás, todas as idéias boas devem ser. O sistema foi inventado na década dos vinte do século passado, quando ninguém nem sonhava com computadores, calculadoras eletrônicas, impressoras etc.. Era lápis, papel e calculadora a manivela mesmo. Ainda no começo dos anos sessenta, em Franca, trabalhávamos com calculadoras Olivetti Divisumma, barulhentas, enormes, mas a contabilidade de resultados funcionava. Na verdade levávamos três dias para apurar o resultado da semana anterior, mas o fazíamos! Hoje qualquer jovem estudante de administração ou ciências contábeis, com ajuda da planilha Excel, coletados todos os dados, fará o mesmo trabalho em três horas!
No sábado, sim senhor, trabalhávamos no sábado, na reunião da diretoria, eram apresentados os resultados, centro de custos por centro de custos, discutidos, e segunda-feira os faltosos cujas seções apareceram em vermelho eram convidados a se justificar. O resultado destas conversas, sempre amigáveis foi, que o dito cujo movia terra e céus para nunca mais ser convidado a dar explicações e todos os centros de custos trabalhavam no azul!
Toda a empresa era enquadrada. Manutenção com Fausto, transportes com Ricardão, cartonagem com Baltazar, administração-contabilidade com Eduardo Belotti e saudoso João Perente, vendas – todos tinham que apresentar resultados positivos, empresários autônomos que eram. Funcionava: – Leva este documento no banco! Pois não – assine aqui a quilometragem! – Gasolina, óleo, pneus, seguro, oficina – departamento de transportes tinha que ser auto-suficiente. Resultado? A pessoa pensava duas vezes antes de requisitar “só uma viagem”!
Na próxima coluna explicarei com mais detalhes de como introduzir e fazer funcionar o “sistema Bata”. Aviso logo – não existe um programa abrangente do sistema. É composto de segmentos individuais que uma pessoa coleta e elabora para resultado final uma vez por semana. Grandes idéias são idéias simples.
Zdenek Pracuch
15/10/12