PREVISÕES ?

Sempre no final do ano e no começo do ano novo somos brindados em jornais, revistas ou na televisão com toda sorte de previsões – econômicas, financeiras, astrológicas, políticas, sociais, desportivas – enfim, nada e ninguém escapa. Mas quase nunca, praticamente nunca, estas previsões são comparadas, decorrido o ano, com aquilo o que realmente aconteceu.

Sem falar nas profecias intermediárias que até já viraram motivo de piadas internacionais, como os infelizes prognósticos do Ministro da Fazenda. De fato, não é fácil ser profeta. Basta ler a coletânea de opiniões dos principais economistas do Brasil, publicadas numa das importantes revistas. Previsões cautelosas, mas todas elas em tom dúbio, que pode ser interpretado tanto positivamente como negativamente, de acordo com o resultado que será ou não atingido.

Neste ponto devo agradecer mais uma vez a gentileza do caro amigo senhor Ricardo Delbem, da Botinas Primavera, de Palestina, SP, que novamente me presenteou com um precioso livro do Nate Silver “The Signal and The Noise”, por enquanto sem tradução para português. Para quem não sabe Mr. Silver foi o único que previu com absoluta precisão a vitória de Barack Obama. O livro traz o resumo das experiências dele e as técnicas por ele aplicadas para conseguir as previsões mais acuradas possíveis.

Como diz Yogi Barra, citado por Silver: ”Fazer previsões, não é fácil, principalmente sobre o futuro!” – Uma fonte acima de qualquer suspeita, Laboratórios alemães Bayer, que confessam publicamente que dois terços das pesquisas “promissoras” não se realizam! E o que dizer das conceituadas empresas de ratings como Standard & Poor 500 ou Moody’s, ou o prestigioso Wall Street Journal que não foram capazes de prever a bolha imobiliária de cujos resultados nefastos os Estados Unidos não se libertaram até hoje.

Qual é a explicação? Segundo o Premio Nobel Paul Krugman “grande quantidade de teoria é aplicada sobre um pequeno montante de dados. Por exemplo, após a construção de computadores foi nos dito em 1971 que dentro de uma década teremos condições de prever os terremotos, mas a solução do problema está tão longe de nos, como estava há quarenta anos atrás.

Nate Silver comenta: “A IBM calculou, que os computadores geram diariamente a quantia de 2,5 quintilhões (alguém pode imaginar o que é isso?) de bytes. Quanto disso representa informações úteis?” E, diz mais: ”Os números não tem como falar por eles. Nos falamos por eles. Nos os preenchemos com sentido. E aí começa o problema. Podemos interpretá-los a nosso modo, para nossa serventia, além de qualquer objetividade relativa.

Não adianta coletar os dados, não adianta estudar estatística se no fim vamos interpretar os dados recolhidos de modo a se encaixar às nossas necessidades, aos nossos desejos. As previsões cautelosas dos economistas que tivemos a oportunidade de ler se enquadram perfeitamente dentro deste raciocínio. Eles têm um patrimônio intelectual, um nome a zelar e no final deverão ter condições de dizer: “Não falei? Não vos avisei?

Poucos são os Nouriel Roubini, aliás não sei de mais ninguém, que tenha coragem de avisar em voz alta: “Atenção! A economia global está se encaminhando para o buraco!” E mais uma vez atenção: segundo ele a recessão mundial só começou e os tempos vão ficar cabeludos por muito maior espaço do que seria desejável.

Muito bem – e o que tudo isso tem a ver com a indústria de calçados? Muito pouco e ao mesmo tempo muito. Muito pouco no sentido que pouquíssimos donos de empresa fazem algum tipo de previsão, que ultrapasse o fim do mês, para ver se sobra dinheiro para pagar a folha. E tem muito a ver, porque a indústria passa por uma fase de profundas mudanças e se o Norte não for bem definido é bem capaz, de o empresário desorientado poder se perder no meio do caminho.

Não é fácil para um empresário afogado nos assuntos do dia manter a cabeça fria o suficiente para acompanhar o noticiário econômico, financeiro e político, fazer as análises pertinentes ao negócio dele e projetar as previsões para futuras ações. Sem falar na precariedade das fontes das informações. Representantes comerciais preocupados com aspectos que interessam a eles, varejistas que dificilmente enxergam o outro lado da rua, compradores de grandes cadeias que orientam as compras locais com base nas compras que fizeram na China e assim por diante. Que belas fontes de informação!

Como se orientar? Como definir os investimentos? Como definir o Norte? Não é fácil. Mr. Silver não pode dar uma orientação absolutamente segura para todos os casos. Mas a orientação principal prevalece: Usar o bom senso e fazer uma distinção rigorosa entre risco e incerteza. O risco Você pode calcular, mas a incerteza não.

E, havendo incerteza pela frente, a melhor política, a salvo das previsões erradas (quase todas quase sempre) é fazer um amortecedor bem recheado de capital e esperar a tormenta passar.

Zdenek Pracuch
28/01/13