PRODUTIVIDADE - 1

Como sempre, ultimamente ainda mais, um dos maiores problemas refere-se ao aumento de produtividade. Nada há de estranho neste fato, já que a concorrência é cada vez mais acentuada e não se trata da concorrência dos competidores nacionais onde, praticamente, todos são vitimas dos mesmos males, mas dos concorrentes estrangeiros, cada vez mais agressivos.

Somos vitimas dos mesmos males que é até óbvio enumerar, mas que todos conhecemos. Falta de mão-de-obra qualificada, legislação trabalhista obsoleta, aumentos salariais sem o correspondente aumento de produtividade, tributação excessiva, falta de infra-estrutura e, um dos males, que pouca gente tem coragem de confessar, são os métodos obsoletos e a estagnação da mentalidade dos empresários, que ainda vivem a realidade do século passado.

Uma das mudanças mais dramáticas não ocorreu na área de tecnologia ou gestão, embora há muito a mudar nestas duas áreas, mas sim na área de comercialização. Mudanças profundas, mas que parecem passar despercebidas à maioria dos empresários da industria de calçados. Desinformação com respeito às tendências dos mercados, aceitação passiva de informações de segunda e terceira mão, excessiva dependência de representantes comerciais no atendimento – precário – do mercado e assim por diante.

A começar por indefinição dos lançamentos, na ânsia de cobrir todas as variáveis de produtos desde sapatilhas de crianças até o Luíz XV e botas de motoqueiros. Afobação na hora de criação de modelos que vai forçosamente refletir nos custos e na produtividade.

Desde muito estou batendo na tecla do desrespeito dos modelistas aos mais rudimentares requisitos de economia e operacionalidade de modelos. Em quantas industrias os desenhos de modelistas passam pelo crivo de calculistas para ver a economia dos modelos na hora de aproveitar bem o material? Nas indústrias conscientes de economia não se corta nem um pé de protótipo antes de passar por esta avaliação!

Quanto a operacionalidade dos modelos no pesponto, nem é bom falar. Quando ainda ministrava cursos e palestras sobre a organização e gerenciamento de pespontos, costumava projetar uma transparência de uma página de um livro técnico alemão sobre o pesponto. Dizia aos participantes, para procurarem na sequencia de operações a palavra “kleben” que na língua alemã representa o verbo “colar”. Nas 36 operações este verbo aparecia três vezes. E o pessoal ficava pasmado – com o é que pode?

Numa das grandes indústrias da época em Franca, havia duas coladeiras para cada máquina de costura! Quanto desperdício, quanto trabalho jogado fora, quanto atraso na produção, porque não havia transportadores e tudo era carregado em caixas de uma operação para outra! Sem falar na cola levada para as lançadeiras das máquinas, peças caras, que duravam um quinto do tempo para o qual foram planejadas. Infelizmente, esta situação permanece até hoje em quase todas as empresas.

Por que não reunir modelista com chefe do pesponto, fazer a sequencia de operações de costura, por escrito, repito, por escrito e analisar e avaliar a conveniência de cada uma das operações, antes que o modelo seja posto em produção? Já que o ponto nevrálgico da indústria de calçados é o pesponto, toda atenção e técnica devem estar concentradas em primeiro plano nele.

Há pouco tempo atrás, o sindicato de Nova Serrana convidou um renomado estilista para ajudar a avivar as coleções de calçado feminino. O mesmo estilista que recentemente despertou a ira de afro-descendentes no São Paulo Fashion Week quando deixou desfilar os seus manequins com rolos de Bombril como penteados. Não resta dúvida a modelagem de calçados dele era original e diferente, só que fugia completamente às possibilidades de produção industrial.

A parte técnica da modelagem é diretamente responsável pela produtividade da fábrica, cujo gargalo sempre é o pesponto. Sem a colaboração efetiva por parte do modelista neste sentido será muito difícil atingir uma produtividade que permita ser competitivo.

A mudança de mentalidade é primordial. Dos velhos chefes turrões pouca cooperação podemos esperar. É preferível aproveitar o conhecimento destes para regular as máquinas e fazer a manutenção das mesmas e confiar a um jovem engenheiro de produção a organização do departamento de costura. Mas cá, entre nos – haja coragem para fazer isso!

Nas próximas colunas voltarei ao tema da produtividade, praticamente inesgotável.

Zdenek Pracuch
08/04/13