PRODUTIVIDADE

A produtividade é hoje, sem dúvida alguma, um dos elementos chave para a sobrevivência não só das empresas individuais, mas de ramos industriais inteiros. A economia globalizada é impiedosa. A Lei Darwiniana, que diz que só  os mais resistentes serão capazes de sobreviver vale, como nunca antes, para as empresas industriais.

O prestigioso e sisudo The Financial Times do Reino Unido escreveu há algumas semanas sobre o Brasil e comentou, que “A retórica em Brasília deveria ser menos sobre guerras cambiais e mais sobre guerras de produtividade”. Nada mais exato e justo. E nem estamos falando da indústria de calçados. Quando pensamos em indústrias bem organizadas e tecnologicamente avançadas, em primeiro lugar vêm à cabeça a indústria automotiva.

Mas, até ela serve de prova da afirmação do The Financial Times. O custo de mão-de-obra de um modelo compacto no Brasil gira em torno de US$ 1.400,00 o que corresponde ao mesmo custo nos Estados Unidos e Japão. No México o custo é de US$ 600, na Tailândia é de US$ 500,00 e na China é de US$ 400,00. O Brasil só é mais barato que a Europa Ocidental e Reino Unido, onde o custo sobe a US$ 1.800,00 segundo os dados da firma de auditoria Price-Waterhouse & Coopers, publicados no Estadão de 25.3.2012.

A economia abalada da Europa Ocidental não deve ser mera coincidência e deve ter alguma coisa a ver com os elevados custos industriais, diretamente ligados é a produtividade. Mas até no Brasil os custos podem diferir e muito. Segundo o presidente da General Motors para América dos Sul, senhor Jaime Ardila, produzir em São Paulo custa o dobro de produzir no Rio Grande do Sul, Minas Gerais ou Bahia.

Dietmar Ostermann, chefe global da Price Waterhouse para área automotiva, cita alguns dados, que podem ser aplicados à indústria de calçados na integra. Os americanos e chineses produzem um automóvel em média em 19 horas. No Brasil são necessárias de 26 a 30 horas, levando em conta  o mesmo nível de automação e do produto. “Os trabalhadores brasileiros precisam ser mais flexíveis”, diz ele.

O paralelo com indústria de calçados está plenamente visível. Porque podemos ter hoje fábricas que começam e terminam um par de calçados em 90 minutos e temos outras e, geralmente são as tradicionais, que levam até duas semanas ou mais, para conseguir o mesmo resultado. Com o número de operações equivalente e com o mesmo quadro de operários, mas raramente motivados e tecnicamente bem instruídos.

A produtividade está diretamente vinculada à gestão. Não são os operários que não têm voz ativa no desenvolvimento dos modelos e que não são ouvidos quanto as dificuldades impostas por modelistas, que por sua vez não se preocupam o mínimo sobre a operacionalidade, quanto mais sobre a economia.

Não são os operários ou até funcionários graduados que têm voz ativa sobre a programação, sobre as compras, sobre o lay-out da fábrica ou sobre a logística de movimentação do produto durante a produção. Todos estes elementos influenciam poderosamente tanto os custos como a produtividade. Falar sobre o ambiente de trabalho, onde as vezes as temperaturas atingem 38 graus centígrados, como pessoalmente verifiquei em Birigüi e Nova Serrana, é pura perda de tempo, porque são pouquíssimos os donos de empresas, que num dia de calor infernal saem dos seus escritórios de ar refrigerado. Bebedouros com água gelada? Sonho de uma noite de verão, como diria Shakespeare.

Há tanta coisa que poderia ser feita em prol da maior e melhor produtividade sem, praticamente, nenhum investimento a não ser investir em tempo e imaginação na gestão. Parece, porém, que o problema reside exatamente neste ponto – imaginação ou seja sair da zona do conforto e inovar.

A falta de produtividade é causa direta de desindustrialização, tão comentada ultimamente. O ex-ministro Paulo Brossard escreveu em 26.3.2012 no jornal gaúcho Zero Hora o seguinte: “ ... e, no momento em que escrevo leio esta manchete num grande jornal paulista: O Brasil cresce menos que todos os países vizinhos.”

E encerra o artigo dele: ”Ficando no fato que o país tenha chegado ao atual grau de desindustrialização, desnecessário dizer que ele é aliado do desemprego, pois não há emprego sem empresas e empresa sem competitividade é entidade moribunda.” Um diagnostico alarmante mas profundamente verdadeiro. Os empresários calçadistas pouco podem fazer contra a desindustrialização em geral, mas podem fazer uma enormidade sobre a produtividade nas empresas deles. Uma receita de sobrevivência.

Zdenek Pracuch
16/04/12