CALÇADO E PSICOLOGIA
Estás brincando conosco? Calçado e psicologia? O que tem o calçado a ver com psicologia? De fato, o calçado diretamente, praticamente nada, mas a indústria de calçados tem a ver e muito. Muito mesmo. Logo agora, quando a grita é geral sobre a falta de pessoal qualificado para exercer as funções de maior responsabilidade dentro das fábricas.
Sem falar na experiência recente e nos resultados conseguidos nas indústrias onde presto assistência tenho dois argumentos coletados durante a minha longa vida profissional. O primeiro argumento se refere a Escola de Trabalho nas Indústrias Bata na, hoje, República Tcheca. Para admissão na Escola além de provas normais de matemática, física, química, línguas tcheca e alemã também eram feitos exames médicos, psicotécnicos e testes psicológicos – na década dos quarenta! E cada teste era eliminatório.
O segundo adquiri durante os meus anos de trabalho em uma trading sueca, quando algumas vezes viajava com o dono da empresa, um judeu com enorme experiência na vida, beirando setenta anos. E nos longos vôos intercontinentais, ele que gostava de conversar, sem intenção direta me passava parte das experiências acumuladas durante a vida pelo mundo inteiro. E numa destas ocasiões me disse: “Mr. Pracuch, toda vez que desobedeci ao parecer da psicóloga ou grafologia (sim, candidatos eram submetidos aos testes grafolôgicos!) me arrependi amargamente!”.
Conheci várias psicólogas durante a minha atuação em Nova Serrana. E fiquei impressionado com os métodos aplicados na seleção e na avaliação dos candidatos às posições das mais simples até os cargos de chefia. É voz comum, que promover um bom operário para a liderança resulta em perda de um bom operário e ganho de um líder medíocre, senão péssimo de uma vez. A explicação é simples.
Nós, os leigos, nos deixamos impressionar com facilidade pelo aspecto ou sorriso simpático, facilidade de expressão, vocabulário acima do coloquial, linguagem corporal atraente, etc.. Mas o que se esconde no âmago da pessoa, quem ela realmente é, só uma pessoa com treinamento específico, com estudos de alto nível e até com bastante prática, pode nos dizer com segurança quase absoluta, o que podemos esperar de desempenho.
Na compra de uma simples máquina de costura o empresário estuda catálogos, colhe informações, faz comparações, estuda, mas quando se trata de confiar o seu bem mais precioso, que é o ativo humano que movimenta a sua empresa, está disposto entregar este bem às mãos de alguém “ - que conheço há anos!” Se esta pessoa está apta a tomar conta de outras pessoas, instruir, conduzir, motivar, controlar e manter um clima sadio dentro do departamento a ela confiado essa já é outra história.
Muitas vezes sou chamado a opinar sobre a conveniência de promoção de um funcionario para um cargo de chefia. Sem ver o “perfil psicológico” elaborado por psicóloga competente nunca emito uma opinião. O assunto é de uma grande responsabilidade e meu treinamento não abrangeu o conhecimento da psique humana. E graças a lição recebida do senhor Fritz Hollander num daqueles longos vôos, uma pessoa que conheceu e lidou com milhares de pessoas no mundo inteiro, pessoas de todos os níveis sociais, todas as raças e credos e mesmo assim não se sentiu capaz de definir o que as pessoas eram no seu âmago, tenho a humildade de pedir auxilio à uma psicóloga para ajudar na escolha das pessoas certas para os lugares certos.
As empresas que tiveram a boa sorte de encontrar bom ou boas profissionais no campo de psicologia e aprenderam a usar os seus serviços, sabem muito bem o que isso representa para um clima sadio dentro da empresa. O serviço da psicologia tem alguma coisa em comum com o sacerdócio, principalmente, no que diz a respeito à confissão, à arte de ouvir. Não que pudesse substituir o papel de assistente social. São duas funções distintas pela natureza, mas elas se completam.
E, principalmente, o elemento feminino se sente muito a vontade de compartilhar os seus problemas, as incompreensões encontradas tanto na empresa como em casa. Sabendo, que tem ao alcance da mão um(a) médico(a) de almas, ajuda a suportar o peso da vida das mães que trabalham, e quantas delas carregam a responsabilidade pelo lar!
A indústria está passando, como já passou n- número de vezes pela escassez de mão-de-obra. Mas mesmo esta situação não deveria ser motivo para admitir qualquer pessoa que se candidate. Por mais que se argumente, uma má escolha, uma escolha contra-indicada no fim resultará num prejuízo maior, do que a falta de um posto de trabalho que com um pouco de improvisação e de boa vontade sempre pode ser sanada.
Torna-se até motivo de admiração pelos que não conhecem bem a psique dos donos das empresas. Estes têm orgulho de alardear o tamanho de investimento em prédios, em máquinas e equipamentos, mas quando se trata de investir em elemento humano, qualquer que seja a quantia, sempre parece que vai afetar a estabilidade econômica da empresa.
Até a neurolingüística pode explicar em parte esta ojeriza. Falamos de “recursos humanos” como se estivéssemos falando de recursos materiais, recursos tecnológicos, recursos financeiros etc. Mas “recursos” humanos? Ser humano é alguma coisa que podemos comprar, trocar, vender ou descartar – ser humano pode ser tratado como uma coisa material? Porque não rebatizar os nossos departamentos de “recursos humanos” para departamentos de “relações humanas”? E começarmos a nos relacionar com os seres iguais a nós, como nos mesmos gostaríamos de sermos considerados e não como simples recurso – descartável.
Não acham, agora, que os calçados têm bastante a ver com psicologia?
Zdenek Pracuch
22/11/10