MÃO-DE-OBRA QUALIFICADA
Ouço de todos os lados, por parte dos empresários, a queixa sobre a dificuldade de se conseguir mão-de-obra. Quando se fala de mão-de-obra qualificada é melhor nem ouvir. Simplesmente desapareceu. Pelo que acompanho, o problema não é só na indústria de calçados, mas é um problema geral. Brasil começou importar mão-de-obra especializada no momento para a indústria metalúrgica, química, de informática e de construções. Mas pelo que se vê, daqui a pouco, a despeito dos dados sobre o desemprego, subemprego e emprego informal, a importação de mão-de-obra especializada tornar-se-á lugar comum.
Propaganda oficial, através das inserções na TV e rádio, quer nos fazer crer, que na educação também, o governo está se superando e que estamos melhorando a cada dia que passa. Até que não parece. A educação começa com três pilares básicos – leitura, matemática e ciências. E nestes três primeiros requisitos básicos, Brasil está atrás dos países de menor expressão econômica como Chile, Uruguai e Colômbia. E no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) o Brasil está na 53ª posição entre 65 países!
A maior parte da população sai da escola sem saber fazer cálculos aritméticos e entender textos simples. Este analfabetismo funcional beira 26% da população com mais de 15 anos! Quando discuto este quadro com os empresários e pergunto qual foi a contribuição deles para melhorar esta calamidade educacional geralmente não há resposta. O que Você fez de concreto para treinar, ensinar e educar o seu funcionário? Os seus líderes estão preparados para instruir e conduzir os seus subordinados? Quantos cursos, palestras e treinamentos eles puderam assistir? Tanto na parte profissional técnica, como na parte humana de cidadãos conscientes e responsáveis?
Vejamos um exemplo prático: A Coréia do Sul, há 40 anos era um país inexpressivo, mas hoje representa o modelo para o mundo graças ao seu exemplar sistema de educação. Com 40 milhões de habitantes exporta o dobro do que o Brasil. Um professor do ensino fundamental ganha equivalente a quatro mil dólares por mês. Quando em São Paulo, um professor no fim da carreira ganha menos de dois mil reais! Lá quase 80 por cento dos alunos do ensino médio vão continuar estudos na universidade, enquanto no Brasil mal chegamos aos 20 por cento! País cinco vezes menor que o Brasil tem sete vezes mais pesquisadores. E assim por diante.
Estes dados foram coletados por Gaudêncio Torquato, professor titular da USP, ou seja, pessoa que vive o drama da educação brasileira na origem e tem acesso aos dados que demonstram o pouco caso dos governantes com o problema dos mais importantes, que refletirá profundamente sobre o destino do Brasil no contexto das nações, num futuro bem próximo. Não há pré-sal que possa trazer alívio a esta situação calamitosa.
Somando a este descalabro educacional, temos ainda a infra-estrutura que se deteriora a cada dia mais, estradas esburacadas, portos congestionados, aeroportos insuficientes, carga tributária em absoluto desacordo com o retorno que o governo proporciona em troca, legislação trabalhista com a idade de 70 anos, absolutamente defasada com a realidade industrial do terceiro milênio e assim por diante. Como é que o Brasil vai ficar? Como é que vai competir nos mercados mundiais?
Voltando ao problema de mão-de-obra qualificada fica a pergunta - quem irá proporcionar o treinamento adequado? O sistema S, que virou incubadeira de “companheiros”? Com tecnologias cada vez mais exigentes e complicadas, não é qualquer operário que terá capacidade de operar máquinas robotizadas ou executar tarefas de absoluta precisão no preparo de produtos químicos e seus compostos. A produção de calçados hoje é uma espécie de engenharia de precisão, onde temos que respeitar décimos de milímetros e décimos de gramas, sem falar nas condições térmicas e pressões adequadas das máquinas.
Quando estudei na Escola de Trabalho das Organizações Bata (hoje Universidade Tomás Bata), para exemplificar, ao longo de 4 anos tivemos durante 4 horas semanais, a cátedra de desenho e modelagem. O primeiro ano foi dedicado exclusivamente aos estudos da anatomia dos pés, dos ossos, músculos, tendões e cartilagens e como conseqüência a construção de formas anatomicamente perfeitas. O sistema S, no Brasil, forma e diploma modelistas em 3 a 6 meses de ensino noturno. Como vamos competir com modelistas indianos, onde Bata treina seus funcionários asiáticos nos mesmos moldes, até hoje, da Universidade Tomás Bata na República Tcheca?
No meio calçadista no Brasil ainda não foi entendido, que hoje a produção de calçados ficou longe do artesanato mecanizado e virou engenharia de precisão. Ainda não foi compreendido em todo seu alcance que o regime paternalista que era baseado na improvisação e no “jeitinho”, tão ao gosto dos empresários brasileiros, foi substituído pelos sistemas modernos de produtividade e métodos de gestão.
E tudo isso tem a sua base na educação, na escolaridade, que deve proporcionar uma base sólida ao aprendizado cada vez mais complexo e exigente. Quem sabe os índigo children, a geração do terceiro milênio, que antes de aprender a ler e escrever já manuseia os computadores, trará uma nova visão de aprendizado e treinamento para os ramos industriais, hoje tão desfalcados de verdadeiros profissionais. Oxalá assim seja!
Zdenek Pracuch
18/04/11