QUALQUER SEMELHANÇA ...

Há muitas causas para a presente crise pela qual o mundo está passando, todas hoje perfeitamente definidas e identificadas. Parte mais difícil é justamente conseguir fazer as correções e colocar a nave novamente no rumo certo. Porém, certos fatos, trazem  a reflexão sobre as coincidências entre os fatos tão distantes entre si, que é bastante difícil no primeiro momento associar uma situação com a outra, mas olhando com mais atenção, podemos identificar com clareza os fatos semelhantes.

Estou me referindo à crise que os “três grandes” da indústria automobilística estão atravessando e que, talvez, sem uma ajuda monumental do governo, não conseguirão superar. Seria um desastre para a economia americana e, por tabela, mundial e tenho sincera pena do Obama, que tanto lutou para conseguir a presidência e como premio recebeu esta bomba relógio cujo tic-tac ainda será ouvido por muito tempo, seja qual for a solução que será encontrada. Porque não é só o dinheiro que resolverá o que foi negligenciado e tolerado durante anos.

A semelhança entre os “três grandes” nos Estados Unidos e os “muitos pequenos” de Franca, e não só, está na convivência com sindicato de empregados da indústria. É da essência da vida sindical conseguir o máximo de benefícios para os seus associados. Até aí está tudo em ordem, até o ponto, em que estas conquistas não interfiram na vida operacional e na lucratividade das empresas.

O lucro não é imoral, não é um pecado capitalista. O lucro é necessário para haver investimentos, pesquisa, enfim o crescimento. Não é isso o que reza a cartilha marxista da esquerda festiva. É compreensível, que é revoltante ver a má gestão das empresas, onde o empresário desvia o capital de giro para os seus luxos pessoais, deixando a empresa a míngua e a cada solicitação da melhoria da remuneração ou condição de trabalho reage como si alguém quisesse amputar um membro dele.

Por outro lado, os sindicatos devem compreender que tudo tem limite e que solicitações descabidas ameaçam a saúde das empresas. Outro dia sugeri numa fábrica  racionalizar o trabalho unindo duas operações numa só, ao que o dono da fábrica me retrucou que no dia seguinte terá na fábrica comissão do sindicato para acabar com esta "exploração“de mão-de-obra!

É este episódio que me leva a traçar semelhança entre a situação precária dos “três grandes” e dificuldades que Franca e outras irão experimentar cada vez mais perante os problemas econômicos que despontam no horizonte. A situação grave dos “três grandes” em grande e importante parte se deve ás exigências e a política sindical das últimas decadas. Os planos de aposentadoria, de planos de saúde, da regulamentação das horas trabalhadas ou das férias, fizeram das montadoras americanas um verdadeiro paraíso trabalhista. Funcionou perfeitamente enquanto não havia concorrência, ou esta era muito precária. Depois que os japoneses e após eles os coreanos entraram no circuito, com a sua operosidade e sem a luta do capital contra o trabalho a festa acabou.

Todos nos lembramos das ameaças de greve e da solicitação dos aumentos exorbitantes dos salários em Franca, onde o sindicato de industriais se omitia com medo das greves e perda de prazos de embarques de exportação. Cedia até ás exigências mais descabidas contando com câmbio favorável, inflação e uma situação onde nós estávamos como a China para os espanhóis, portugueses ou italianos.

Não tenho nada contra a remuneração justa. Pelo contrário, um operário bem remunerado produz mais e melhor. Mas por que chegamos a ter diferenças  de até 100 %  na remuneração em comparação com outros centros calçadistas brasileiros? E agora? Como fica a nossa competitividade?

Assim como os “três grandes” na indústria automobilística perderam a competitividade, da mesma maneira Franca já perdeu em parte o poder de competição devido aos salarios que paga e em boa parte por pouca produtividade, muitas vezes causada pela interferência desastrosa da parte dos sindicalistas que na ânsia de proteger o trabalhador tiram dele a chance de ganhar a vida.

Não será nada fácil colocar a nossa nave no rumo certo. Desperdícios, gestão obsoleta, tecnologia com atraso de pelo menos cinco décadas – realmente torna-se muito difícil ser otimista. Mas esperemos que a profecia do senhor Arsênio Freitas, de que o ano de 2009 será o melhor ano da história de Franca se concretize, profecia esta, com certeza baseada em fatos que mereceriam ser tornados públicos para alegrar pelo menos um pouco o desânimo geral. Oxalá.

Zdenek Pracuch