A RECESSÃO DE 2008 ?
Na euforia dos resultados favoráveis do comércio do fim do ano, em grande parte impulsionados pelo crédito farto e, em muitos casos, até irresponsável, como, por exemplo, financiamento de automóveis (em grande parte feitos de materiais plásticos) até sete anos, com boa dose de otimismo que o automóvel sobreviverá até lá, mas como disse, nesta euforia toda passou desapercebida uma notícia importante.
Segundo o Banco de Investimentos Merrill Lynch a chance de recessão nos Estados Unidos em 2008 chega a 100 %.
Parafraseando o saudoso ex-ministro do Planejamento e embaixador Roberto Campos, quando o gigante norte-americano sofre um resfriado a economia brasileira é atingida pela pneumonia. Muito bem, na época dele, a economia brasileira estava muito mais frágil e dependia muito mais do grau de investimentos estrangeiros. Hoje a situação mudou os atores e fatores são diferentes, mas uma previsão destas acende o sinal amarelo.
Os economistas e econometristas da Merrill Lynch elaboraram um modelo matemático para comparar as situações e o desempenho da economia. Para a grande surpresa deles, as recessões dos anos 1991 e 2001, continham o mesmo padrão matemático que o comportamento da economia do ano 2008. Até o mês de agosto 2008 a chance de recessão era de 0 %. Passou para 75 % em outubro e em dezembro se firmou em 100 %.
Vamos nos restringir aos fatos relatados e tentar avaliar o que este padrão matemático pode representar para a nossa indústria de calçados, que já passa por um período bastante delicado. Não faz parte da rotina diária dos nossos empresários preocupar-se com aquilo o que se passa além do horizonte imediato da indústria e do mercado. Assim foram surpreendidos, por exemplo, pelo avanço dos asiáticos, embora já previsível com, pelo menos, quatro anos de antecipação.
Poucos foram os empresários, que adequaram o planejamento das suas atividades tanto no setor de produção como no das vendas a esta ameaça, afinal tornada real. - Se foi aceso sinal amarelo sobre a recessão americana por uma entidade de respeito de uma Merrill Lynch, deveríamos perguntar, como isso pode afetar o futuro e a segurança dos nossos empreendimentos.
Num exercício de futurologia podemos prever que, se o mercado americano terá alguma restrição ou diminuição das importações, quem mais sofrerá com isso será a China, hoje em grande parte dependente das importações americanas. Brasil já cedeu a boa parte deste mercado aos chineses. Gaúchos que o digam.
Considerando a agressividade dos chineses, é tranqüilamente previsível que, encontrando dificuldade para colocação da monstruosa produção deles no mercado norte-americano, voltarão atenção para outros mercados, com resultados que já conhecemos bem demais. – E, tomara, que um dos mercados a ser atacado não seja o brasileiro, mas tudo indica que também o será.
Ou seja, cada vez vale mais a estratégia de qualidade, criatividade e serviço impecáveis, manter uma clientela fiel e bem atendida, produzir com máxima economia e produtividade, aplicando métodos modernos de gestão e de controles. Nenhuma novidade, mas infelizmente, ainda pouco praticada.
Na parte da gestão, pesar bem as decisões sobre investimentos, vigiar o capital de giro, onde ideal seria trabalhar com o capital próprio. Por mais que os juros baixem, a baixa lucratividade da indústria de calçados torna qualquer financiamento muito arriscado. Além de outras vantagens, os fornecedores também sofrem de baixa capitalização e ficam muito sensíveis às ofertas de compras à vista, as quais podem contribuir, e muito, em elevar a lucratividade notoriamente baixa.
Quando há quatro anos comecei a chamar a atenção para o perigo amarelo, fui chamado por muita gente de pessimista e catastrofista. Bem, o pior cego é aquele que não quer ver. A recessão nos Estados Unidos pode parecer uma ameaça que pouco tem a ver com realidade brasileira. Mas, não podemos esquecer que estamos vivendo numa economia globalizada, onde o respiro de um chinês em Shanghai pode desencadear um hurricane em New York.
Zdenek Pracuch