PRESENÇA DE ROBÔS
Em uma das últimas edições da revista World Footwear foi publicado um interessante estudo sobre as futuras tecnologias a serem esperadas na indústria de calçados. Em contraste com outros ramos industriais como, por exemplo, indústria têxtil ou indústria automotiva, a indústria de calçados, sob ponto de vista da automação não evoluiu quase nada.
Se tirarmos a tecnologia do calçado injetado diretamente sobre o cabedal, tecnologia esta, que permitiu praticamente abolir a montagem do calçado (dependendo do tipo da construção), estamos produzindo calçados com as mesmas técnicas do começo do século passado.
Não resta a menor dúvida, que as demandas sobre os fabricantes de calçados estão aumentando. A pressão para maior variedade, para maior possibilidade de escolha, a pressão sobre os prazos de entrega, sobre a maior qualidade e, principalmente, sobre os preços está tornando a vida dos produtores mais difícil a cada dia.
Como equacionar estas demandas com aumento de produtividade e conseqüente baixa de preços e prazos de entrega mais curtos? Sem falar na necessidade de enorme capital a ser investido em pesquisa de novos equipamentos e novas tecnologias que poderiam ajudar na solução dos problemas acima apontados.
A maior indústria de calçados do mundo hoje, a chinesa, se viu na frente dos mesmos desafios há uns dez anos atrás, quando descobriu que as enormes fábricas eram pouco flexíveis para a demanda da comercialização atual. Foram obrigados desmontar os elefantes brancos a criaram, com operosidade tipicamente chinesa, milhares de fábricas menores, flexíveis, adaptáveis ao ritmo frenético de mudanças da moda e, embora, produzindo pelos métodos tradicionais ainda, já começam sentir a pressão dos custos e já estão se preocupando com produtividade e economias.
O interessante no estudo da “World Footwear” é que a mudança tecnológica se aplica somente ao setor de montagem e do acabamento do calçado. Não há uma linha sequer de estudo de como racionalizar os departamentos de pesponto, justamente o setor de mão-de-obra mais intensiva e mais especializada. Parece que ainda não há uma solução em vista, pelo menos, a curto prazo.
A robotização do setor da montagem, nas operações repetitivas ou de grande precisão, como as de asperagem ou aplicação de cola, não constituem novidade e já temos robôs operacionais, que executam estas tarefas melhor que operários humanos. Máquinas de montagem automática, guiadas por fotocélulas também já fazem parte do cenário. A única inovação que, aliás, também não é tão nova assim, é a abolição de transportador, a popular “esteira”.
O serviço é passado de operação em operação com a ajuda de robôs, que sincronizados, passam o trabalho de um para outro. Um arranjo típico para fábrica de calçado masculino com produção de 900 a 1200 pares por dia conteria 17 a 19 operações, ocupando de 8 a 13 funcionários no departamento de montagem e de acabamento. Ou seja, é um grande avanço sobre a situação atual, mas ainda muito longe de uma automação, como a estamos vendo na indústria têxtil, onde 5 engenheiros tomam conta de até 4.000 teares por turno.
A pergunta que se impõe quando se analisa o quadro global da indústria de calçados é a seguinte: Quanto tempo esta evolução para maior robotização vai demorar, para surtir um efeito prático na formação de custos, pela economia proporcionada pelo trabalho dos robôs para que seja capaz de anular as economias competitivas dos concorrentes orientais, que estão invadindo cada vez mais os mercados mundiais?
Em outras palavras – o oxigênio não vai acabar antes de conseguirmos nos aparelhar para permanecer competitivos? É óbvio, que com métodos atuais de produção e de gestão, nem de longe atingimos ainda os limites da economia. Os desperdícios em todos os setores de uma fábrica de calçados continuam, como se o mundo dependesse só da nossa produção de calçados. Poucas medidas dentro das fábricas, por desconhecimento, ou por acomodação ou ainda por um otimismo injustificável – foram tomadas no sentido de tornar a produção e a gestão mais racional, diria mais aerodinâmica, mais de acordo com o terceiro milênio e com a inserção na economia global.
Por isso, quando a robotização vier, e ela virá, será somente uma parte da possível melhoria do contexto. As causas da baixa competitividade são mais profundas e não convém esperar por alguma solução milagrosa via fábricas automáticas. O dever de casa, de tornar as nossas fábricas competitivas, não podemos transferir para ninguém. Este dever de enxugar as fábricas, fazê-las produtivas, econômicas e competitivas cabe a nós. E se alguém o fizer por nós, é lógico, que também ficará com o resultado.
Zdenek Pracuch
21/02/11