SOMENTE UM SIMPLES SALTO?
Pouca gente sabe que devemos a existência do salto no calçado aos soldados da cavalaria do século XVII que descobriram a utilidade do salto para dar maior firmeza ao pé no estribo da sela dos cavalos, quando montavam.
A idéia logo foi aproveitada para o uso diário pelos baixinhos que “subiram” um pouquinho mais na vida e também como símbolo social de boa vida porque sugeria que o indivíduo que usava o salto não precisava trabalhar.
Embora hoje existam muitos tipos de calçados que não usam salto, por exemplo rasteirinhas, havaianas ou “siders”, os estudos de biodinâmica indicam que, para um andar anatomicamente adequado, o calçado dos adultos deveria ter salto de uma polegada (2,54 cm), obviamente acrescidos da espessura da sola e da entressola, quando é o caso. O movimento que chamamos de “rolamento do pé”, quando iniciamos o passo é muito facilitado quando parte de uma plataforma desta altura e exige um esforço muito menor.
Tanto assim que quando montamos o esqueleto do desenho sobre o qual serão completadas as peças do futuro calçado, a primeira coisa a definir é a altura do salto e a segunda é a determinação do ponto onde o pé irá flexionar no andar, comumente chamado de bola.
Não quero invadir a seara dos ortopedistas e podólogos para discutir os males causados pelo uso do salto alto. As usuárias que o descubram por si mesmas ou na consulta sobre a misteriosa dor nas costas. Quero avisar sobre um outro problema, geralmente ignorado ou tratado com pouco caso. Trata-se de segurança.
Quando dou palestras sobre ou quando implanto os sistemas de controle de qualidade acrescento aos obrigatórios controles de qualidade estética e tecnológica, o controle de qualidade de segurança. E o principal item deste controle, sem desmerecer os outros, também importantes, mas não críticos, é o da fixação do salto sobre a base.
Muitos fatores estão envolvidos: solidez do material da palmilha e da sola sobre a qual o salto será fixado; tipo do material do salto; a técnica da fixação – parafuso, prego, cola; número de peças fixadoras; profundidade alcançada dentro do salto e vários outros que extrapolam o campo desta coluna.
Qualquer um dos fatores acima, sendo desobedecido ou tratado inadequadamente, trará trabalho para cirurgiões ortopedistas com algo como fratura do tornozelo, ou queira Deus, só dos ligamentos rompidos ou uma simples luxação.
E se o caso se der nos Estados Unidos, o resultado será um belo processo de indenização à cliente prejudicada, baseado nos laudos técnicos sobre a falha no processo produtivo. Temos alguns casos assustadores por lá, mais ainda, quando notamos que a onda indenizatória já cruzou a fronteira.
A simples determinação da altura do salto não depende só do bom gosto do desenhista, mas em grande parte do formeiro (o produtor das formas para calçado), que deve saber a altura exata do salto para modelar a nossa forma de acordo com a anatomia do pé e da biomecânica do ato de andar. A compradora nunca saberá a que deve atribuir o desconforto ao andar.
Caso isso fosse feito sempre, evitaríamos o espetáculo das vitrines, principalmente de sapatilhas femininas (geralmente produzidas sobre as formas de tênis) apontando os bicos para cima como uns foguetes espaciais.
Mas, fazer o que? Como ouvi de um fabricante: “Não faz mal. A cliente não entende nada disso!” Amém.
Zdenek Pracuch