SOBRETAXA DE IMPORTAÇÃO

Leio o pronunciamento de um alto dirigente político, congratulando-se com o governo sobre o efeito benéfico para a indústria de calçados que teve a imposição de sobretaxa sobre o calçado importado da China. Presume se que um político de alto escalão tem informações de fontes sem qualquer sombra de suspeita e que também dispõe de visão para avaliar os resultados de certas medidas que surtirão efeito a médio e longo prazo.

É nisso que se resume a questão toda. O simples fato da China não ter se manifestado sobre o assunto ainda não quer dizer, que o fato foi aceito. No comércio internacional, a não ser em casos muito específicos e de grande alcance, as medidas são tomadas, avaliadas e combatidas, depois de muita reflexão e projeções sobre todas as variáveis envolvidas.

O fato que deixa o Brasil numa posição vulnerável é que a China se tornou parceiro comercial que mais importa do Brasil. A indústria de calçados, tanto brasileira como a chinesa, no computo geral das exportações e importações não representa quase nada. Mas bastará algum funcionário do partido comunista chinês levantar a questão, com argumento, que o Brasil está prejudicando a região dele, com os “clusters” da indústria de calçados, que os há na China e um problema será criado.

O governo chinês já mandou sinais para a Vale de que não gostou do aumento do preço dos minérios embora ainda num tom suave, como querendo dizer – não façam isso rapazes! E eles não brincam em serviço, como demonstraram com os quatro funcionários australianos da Rio Tinto, a concorrente da Vale do Rio Doce na mineração, condenados a longas penas de prisão por “espionagem e busca de informações”, que pode significar tudo ou nada na ideologia comunista.

O mais interessante é, que estamos olhando os produtos chineses como vilões, quando os nossos problemas estão aqui, entre nós e nenhum político tem interesse, ou melhor, se atreve a falar neles. Alguém lembra como antes da eleição para o segundo mandato de Sua Excia. se trombeteava e declarava como prioridade do novo governo a reforma tributária, reforma da CLT e a reforma sindical, para melhorar a competitividade na arena global dos produtos brasileiros?

O governo está terminando - graças a Deus - sob aplausos da maioria da nação, pelo menos nas pesquisas (aliás, conhecem alguém que já foi entrevistado por algum instituto de pesquisa de opinião, eu nunca encontrei ninguém) e nada, absolutamente nada, foi feito. O que também não estranho depois de tantos escândalos e desmandos, quem iria promover e promulgar a nova, reformulada legislação? A elite política tão desmoralizada que representa a nação? Que absolve todos os seus pares, seja lá de que sejam acusados?

Mas voltemos aos chineses, já que sobre os políticos há pessoas muito mais qualificadas para comentar o seu comportamento ou a falta de. Já que não nos podemos defender da invasão dos produtos bem mais baratos e hoje em dia também muito bem feitos, qual é o caminho para sobrevivência a seguir?

Há vários, mas todos eles esbarram principalmente na falta de visão, ou no dizer dos americanos “wishfull thinking”, algo como tomara que seja! Tomara que alguém decida algo em nosso favor, tomara que não precisemos mexer naquilo o que fazemos há tanto tempo e já apreendemos fazer, tomara que não venham com muitas inovações que nos custariam investimentos, treinamentos e toda sorte de dores de cabeça!

Muita gente ainda não percebeu, mas já se passaram quase dez anos completos do terceiro milênio, mas a mentalidade é ainda da primeira metade do século passado! Só as mudanças na parte da comercialização são de assustar. As mudanças nas estruturas de distribuição, com crescente poder de negociação das grandes organizações, das grandes cadeias de lojas, que já apreenderam a se abastecer de outras fontes que não a indústria de calçados brasileira. O comércio eletrônico cada vez mais atuante e presente!

Quando o adido comercial da embaixada chinesa há três anos atrás, proferiu uma palestra em Franca e ao ser perguntado o que aconselharia aos francanos para sobreviver no mundo calçadista global, respondeu que o melhor seria mudar as fábricas daqui para a China. Embora muita gente se sentiu ofendida, os grandes grupos como Azaléia, Alpargatas ou Dilly já estão lá!

Eu pessoalmente apostaria na Índia com o seu maior rebanho bovino, eqüino e caprino do mundo. O nosso folclore nos diz que em número de bovinos é o Brasil. Mas o Brasil está em primeiro lugar em desfrute do rebanho. Em número de cabeças a primeira é a Índia . É verdade, não matam as vacas, mas o que será que fazem com os touros? E com respeitável programa do governo para pôr a indústria de couros e calçados no primeiro lugar do mundo será um competidor e tanto.

Depois destas considerações só me resta a confirmar o que disse: a sobretaxa é um paliativo. Nossos problemas estão em outro lugar, estão entre nós e, lidando com o parceiro, o nosso maior parceiro no comércio exterior atualmente, para quem os contratos assinados não passam de cartas de intenções (perguntem à Embraer!), toda cautela e cuidado é pouco.

Que sirva de alerta o que ouvi de um fabricante de calçados que mudou a fábrica dele de Taiwan para China continental, quando perguntei como pode ser isso, já que volta e meia uns atiram nos outros: “Política é política, business é business!” Ficou claro?

Zdenek Pracuch