QUAL É O TAMANHO ?
Durante o Congresso Brasileiro de Calçados por ocasião da Couromoda, o diretor do Fórum Couromoda, senhor Airton Manoel Dias apresentou uma interessante palestra, abordando a problemática do comércio varejista. Abordou o cálculo de Mark-up, falou sobre o giro dos estoques, mas o assunto que interessa a todo o universo de consumidores é o problema dos tamanhos de calçados e o respectivo calce.
Sabemos por estatísticas mundiais, respeitando etnias e anatomia que, um calce razoável atende às necessidades de 60% dos consumidores, usando calçados feitos nas formas industriais. 35% dos consumidores têm que se adaptar a estas formas, geralmente comprando calçados um ou até dois tamanhos acima da medida do pé para obter um calce razoavelmente confortável. E 5% dos consumidores, se quiserem calçar um calçado que permita algum grau de conforto têm que apelar para o calçado ortopédico ou calçado feito sob medida.
Muita gente, por desconhecimento da causa, culpa os fabricantes ou estilistas pelo desconforto. Mas a base do calçado é a forma. Forma que antigamente era feita de madeira e hoje na sua absoluta maioria é feita de polímeros. As formas de madeira com uso prolongado secavam e diminuíam de tamanho, prejudicando a anatomia pretendida. Hoje este problema não existe mais. O problema de hoje está na manufatura de formas, nem sempre obedecendo aos ditames da anatomia.
Os empresários costumam trazer das suas viagens ao exterior, modelos de calçados que entregam aos formeiros, com pedido de copiar a forma do modelo trazido. Mas nem o fabricante e nem o formeiro estão preocupados com aspectos de anatomia. A “beleza” da forma é que importa.
Até agora estávamos falando sobre o tamanho relativo ao comprimento. Mas este é só um componente de calce. O outro, não menos importante é a largura da forma. No Brasil devido a diferentes etnias temos os nordestinos com pés excessivamente curtos e largos, enquanto no Sul e Sudeste os pés são mais compridos e estreitos. - Quando ainda existia indústria norte-americana de calçados, a largura das formas era tão importante quanto o comprimento, para garantir absoluto conforto para a maioria dos pés.
Existiam 14(!) larguras diferentes a começar com AAA terminando com H. Hoje, principalmente, para facilitar produção nos países exportadores, os americanos usam só 3 larguras: N (narrow) – estreita, M (medium) – média e W (wide) – larga. No passado nas mais de 300 lojas Florsheim era comum o cliente escolher o modelo e dizer simplesmente que calça 8 ½ BB e sem experimentar mandar embalar e levar o calçado, tão certo estava que a forma vai calçar!
Nos anos setenta e, acredito, que alguns veteranos da Calçados Pestalozzi ainda vão se lembrar, por meio de intercâmbio dos executivos patrocinado pela UsAid, ficou mais de um mês conosco mr. Alex Kaufman, que foi supervisor das fábricas Florsheim. Quando mediu as nossas formas ficou horrorizado. Quando começou medir as formas com as ferramentas que trouxe e comparar com as tabelas dele, não era para menos.
O senhor Airton Manoel Dias diz: ”As frequentes reclamações do varejo sobre o tamanho de calce dos calçados brasileiro foram comprovadas no estudo. 77% das empresas confirmaram ter problemas com a numeração indicada nas etiquetas, que, na prática não conferem com o padrão usual do calce prejudicando as vendas. Adotar a indicação de centímetros do sapato ao invés da numeração é a melhor solução para 62% dos entrevistados.”
Permito me discordar do senhor Dias. Já temos uma numeração internacional em centímetros, chamada “Mondopoint”. Entre os países que a usam podemos citar Rússia e Suíça. Mas o problema do calce continua. Porque o problema não está na marcação dos tamanhos. Está na fabricação de formas! Um ponto francês, a numeração que o Brasil usa, mede 6,66 milímetros. Um Mondopoint mede 5 milímetros, ou seja a diferença no calce é mínima. A diferença entre um calçado experimentado as 8 da manhã e as 17 horas pode apresentar diferença de um ponto a mais para um calce confortável, no mesmo calçado devido ao crescimento do volume do pé, pelo calor, pela atividade etc..
Os próprios varejistas sairiam prejudicados, porque se tem no estoque uma corrida de 8 pares do tamanho 37 ao 44, precisaria para os mesmos tamanhos 10 pares de grade pela numeração métrica do Mondopoint. Devido àquela diferença de l,66 milímetro a menos no caso do Mondopoint. E nem ouso sugerir a trabalhar com três larguras, como os americanos, que significaria uma diferença enorme. Mas tratem de convencer um lojista que já está lutando com dificuldades, manter no estoque o mesmo modelo em três larguras diferentes!
Houve várias tentativas de emplacar meios tamanhos para o ponto francês no Brasil, ou seja dividir os tamanhos existentes segmentados em 3,3 milímetros, porque os turistas desconhecendo as bases da numeração de tamanhos voltavam dos EUA encantados com o calce e atribuindo o mérito aos meios tamanhos. Só que meio ponto na numeração americana representa 4,3 milímetros, ou seja, quase 25% a mais. Preciso justificar o por que dos meios pontos sobre o ponto francês fracassaram no Brasil?
Entendo que precisamos sempre satisfazer o cliente da melhor maneira possível. Mas os formeiros deveriam ter a responsabilidade e o orgulho de um produto bem feito para orientar os fabricantes, evitando assim que 77% dos lojistas tenham problemas com calce.
Zdenek Pracuch
06/05/13 (edição póstuma)