A NECESSIDADE DOS TESTES

Esta semana aconteceram dois fatos sem nenhuma ligação entre um e outro, mas que chamaram a minha atenção para um ponto muito importante na produção de calçados: a importância de testes. Testes de materiais, de produtos e de qualidade.

Recebi a incumbência de traduzir para português as normas Sul-africanas para calçados. Uma tarefa, para qual olhei com uma certa descrença. Normas Sul-africanas? Para calçados? Mas, quando comecei a traduzir, me enchi de respeito. Normas completas, complexas, atuais atendendo às tecnologias e materiais do terceiro milênio.

O segundo fato que presenciei foi numa fábrica de bom porte, com produto bem aceito no mercado, onde o dono comentou comigo sobre a justiça ou injustiça nas reclamações ou devoluções. O que chamou a minha atenção foi desgaste da sola, que achei excessivo em vista do desgaste total do calçado. Por cortesia, como visitante, guardei esta observação para mim, mas tive certeza, se o produto tivesse sido submetido aos testes de qualidade, estaria fora da Norma.

E quando, baseado nestes dois fatos, comecei a investigar em outras fontes, descobri, e confirmei o que já suspeitava. Ninguém sabia quais deveriam ser os parâmetros de densidade, de abrasão, de flexão e do rasgamento das solas aplicadas nos tênis, seja lá de que material fossem. Tinha até gente que achava que estes testes não existiam ou, pior, que eram supérfluos.

Bem, estes testes e parâmetros existem. E para se produzir um produto de qualidade há necessidade de efetuá-los e controlá-los. O triste fato é que o laboratório do CDE vive às moscas e que os industriais continuam usando matéria prima, muitas vezes de procedência duvidosa, com os resultados correspondentes.

Vi nas Normas Sul-africanas parâmetros e testes para materiais de cabedal, de colas e de insumos. Quantos deles praticamos aqui? Nenhum. As recepções de materiais nas indústrias não têm nem especímetro para conferir a espessura dos laminados que estão recebendo. Testar flexão, alongamento, rasgamento, fixação de acabamento, gramatura do tecido sobre o qual o laminado foi dublado, resistência ao rasgamento, alongamento, absorção de umidade dos materiais não tecidos da base dos laminados – são testes essenciais para saber o que o material irá fazer nos pés dos clientes.

Contrafortes quebradiços, couraças moles, palmilhas sem nenhuma resistência são comuns. Fornecedores pouco se preocupam e os industriais acham que todos os materiais são a mesma coisa. Com diferencial apenas no preço.

Quem sabe dizer qual é a resistência à abrasão dos materiais por ele injetados? Quantas flexões a sola pode agüentar sem danos aparentes? Não vamos falar de testes mais sofisticados, como por exemplo, do envelhecimento. Mas qual é o grau Shore da dureza? O teste é simples toque do durômetro. No entanto – quem o faz?

Qualidade não é só a qualidade estética. Mas, principalmente, a qualidade tecnológica, a embutida dentro do produto. Invisível, mas sempre presente, com as manifestações que desagradam o cliente. E sabemos muito bem, que somente um cliente satisfeito é a garantia de continuidade do negócio.

As Normas, sejam sul-africanas, européias ou brasileiras existem. Mais ou menos completas, pouco importa. O que importa é seguí-las. E a única maneira de ter certeza que estão sendo obedecidas é fazendo os testes.

Zdenek Pracuch