O QUE PODEMOS APRENDER DO CASO TOYOTA?

Poucas vezes pudemos acompanhar uma deterioração da imagem igual a que ocorreu com a montadora japonesa Toyota em questão de poucos meses. O que a indústria de calçados, que é o foco do nosso interesse tem a ver com a indústria automobilística, que ao lado da indústria aeronáutica incorpora as mais modernas tecnologias e métodos de produção? Com a robotização avançada e controles de qualidade, que garantem o produto até por cinco anos sem se importar com a quilometragem rodada?

O que tem a ver? Muito mais, do que poderia aparecer à primeira vista. O que é uma indústria? É um método de produção por meio de recursos técnicos avançados, mão-de-obra especializada, produção repetitiva em grande escala de produtos de qualidade assegurada. Sob estes aspectos estamos em condições de igualdade, embora em relação ao tamanho e números envolvidos, quem somos nós, os sapateiros?

Toyota, no ano passado desbancou o, até então líder, General Motors do primeiro lugar em número de unidades produzidas e se consolidou como número um da indústria automobilística mundial. Uma posição invejável e até parecia inatacável. Mas, de repente começou acontecer o inacreditável, um “recall” atrás do outro, ações na justiça, até uma juíza de Minas Gerais, suspendeu a venda de um modelo por razões de segurança. Ações na bolsa desabaram, presidente da Toyota veio pedir desculpas publicamente aos compradores dos seus produtos e as vendas reagiram negativamente. Tudo indica que este ano GM vai retomar a sua posição anterior.

O que aconteceu de errado e o que podemos apreender deste lamentável episódio? Sim, podemos apreender bastante, mas dois pontos são cruciais e, infelizmente, a indústria de calçados peca pelo uso dos dois que mais contribuíram para a crise da Toyota. São eles:
1) Obsessão com o corte dos custos e
2) Controle de qualidade precário.
Os dois pontos, na opinião dos analistas contribuíram mais que os outros analisados, para a crise que se abateu sobre a infeliz marca.

Os dois pontos são estreitamente vinculados. A obsessão em baixar os custos desaba sobre departamento de compras, que é coagido a procurar materiais cada vez mais baratos e em melhores condições de pagamento. É óbvio, que ninguém pode fazer milagres e o resultado destes preços mais baixos é a queda na qualidade do material comprado o que por sua vez reflete na qualidade do produto final.

Se não existir um controle de qualidade rigoroso na entrada do material na empresa, se este controle de material não for acompanhado de testes de qualidade e aprovado(!) antes de iniciar sua utilização na produção, então adeus, o produto já está comprometido. Na indústria automobilística isso era norma, mas o aumento de produção e a ânsia de baixar o custo, fizeram rebaixar as exigências, tanto de qualidade como de testes e o resultado o mundo inteiro está acompanhando. Pedir desculpas a esta altura é um gesto simbólico que, dificilmente, restaurará a confiança dos clientes.

Como está a indústria de calçados neste quesito? Muitíssimo mal. Ânsia de comprar barato predomina sobre todos os critérios. E testes? Podemos contar nos dedos de uma mão, e mesmo assim com alguma sobra, as empresas que testam materiais na entrada. Em Nova Serrana, por exemplo, o bem equipado laboratório de testes está criando teias de aranha. Há, sim, empresas que tem laboratório próprio, principalmente na área de calçados de segurança, mas isto constitui a exceção para comprovar a regra.

E quanto ao controle de qualidade? Já ouvi de mais de um empresário que me chamou para ajudá-lo no tópico de controle de qualidade, quando pedi admissão de duas ou quatro funcionárias para serem selecionadas e treinadas para inspetoras(es) de qualidade, reação típica: Você quer me quebrar? Minha folha já tem tamanho insuportável e mais quatro pessoas? De maneira nenhuma! Isso é problema do gerente da fábrica, olhar a qualidade.

Não adianta argumentar que gerente não tem como olhar o pé por pé que é o único método que garante uma qualidade total. Não adianta argumentar que o controle de qualidade é uma atividade tremendamente cansativa e há necessidade de revezamento dos funcionários de tempo em tempo para a qualidade do serviço não se deteriorar. O “empresário” só vê na frente dele o cifrão do real da folha de pagamento. As devoluções, reclamações, insatisfação dos clientes e dano à imagem da firma dele neste momento não contam, não representam nada. Só o tamanho da folha de pagamento.

Como foi publicado numa revista especializado que analisou o caso Toyota: “Na sua dupla ânsia por se tornar líder mundial e cortar custos, a Toyota inevitavelmente relaxou no controle de qualidade.” Por que será que nós, que não queremos tornar nos líderes mundiais, embora queremos cortar custos, relaxemos no controle de qualidade? Ou pior ainda, nem temos o controle de qualidade! Este é o caso de um sem número de empresas! Porque o que elas chamam de inspeção de qualidade a piedade não nos deixa comentar.
 
Cortar custos? Vejamos um cálculo rápido: Uma fábrica com produção de mil pares por dia ao preço de fábrica de R$ 25,00 fatura por mês R$ 500.000. O custo de duas inspetoras de qualidade seria de no máximo de R$ 3.000,00. Gasto com elas por real faturado seria de R$ 0,006, ou sejam, seis milésimos de real por real faturado! R$ 0,15, sim, quinze centavos por par, cujo preço da fábrica é de R$ 25,00.  Este é o preço da tranqüilidade e da segurança, a de que somente os produtos de primeira linha deixam a fábrica para os pés dos clientes.  Em contrapartida – qual é o custo de devoluções, da insatisfação dos compradores e perda da imagem da marca? Perguntem à Toyota!

Nunca na minha vida encontrei o desafio de controle de qualidade na indústria metalurgica ou automobilística. A minha experiência e a minha opinião sobre estes campos é menor que zero. Mas encontro, quase que diariamente, os desafios de controle de qualidade na indústria de calçados ou, o pior dos casos, as conseqüências da falta de um controle eficaz. Podem acreditar, custa caro não ter um. E pelo andar de carruagem, pelo que está acontecendo no âmbito global, o desastre da Toyota será repetido a qualquer momento, em qualquer ramo da indústria, em qualquer país. Cortar os custos em detrimento da qualidade, até os chineses já apreenderam que não funciona!

Resumindo:
- Cortar os custos, sim. A qualquer preço, não.
- Não ter controle de qualidade ou baixar os parâmetros, nunca!

Zdenek Pracuch