EXPORTAÇÃO DE COUROS“WET-BLUE”

A revista inglesa World Footwear traz em um de seus últimos números duas notícias aparentemente sem nenhuma ligação entre si. Mas só aparentemente: uma notícia fala sobre o fechamento de vinte unidades produtivas da Calçados Reichert no Vale dos Sinos com a conseqüente perda de 4.000 empregos. A outra notícia diz que até o fim de maio 2007 as exportações chinesas de calçado de couro cresceram 8,3 % atingindo o volume de 535, 4 milhões de pares, o que exponencialmente projeta uma exportação de aproximadamente 1,300 milhões de pares até o fim de 2007, ou seja mais de três vezes a produção brasileira de calçados de couro.

Ao mesmo tempo o número de Maio/Junho 2007 da revista Courobusiness, editada em Brasília, traz uma reclamação do Sindicato das Indústrias de Curtumes e Correlatos do Estado de Goiás, e mais 10 entidades contra a taxação de 9 % sobre o couro Wet-Blue exportado.

Para os que não estão do ramo, o couro Wet-Blue, ou seja, molhado-azul em inglês, é o couro que sofreu processo de pré-curtimento e depilação no primeiro estágio de curtição. Sendo assim a maior parte dos elementos poluidores, como pêlos e restos de carne e de sebo são eliminados e daí para frente o processo de curtição fica relativamente limpo.

Quem está com a razão? Os calçadistas, cuja matéria prima, cada vez mais escassa vai para as mãos dos concorrentes e, pior ainda, nas classificações superiores, que nem são oferecidas no mercado nacional, ou os curtidores que não se importam com os problemas da indústria de calçados e querem colocar o seu produto, de produção simples, em grandes lotes para os importadores?

O argumento principal dos curtidores é de que a taxação custará USD 90 milhões ao setor privado, estimando se a exportação do Wet-Blue em um bilhão de dólares em 2007. Mas, será que essa taxação não é embutida no preço do couro? É difícil de acreditar no sacrifício dos curtumes em pagar a taxação da exportação do lucro na venda! Até este ponto o espírito patriota-caritativo dos nossos empresários não vai.

O outro argumento: o que fazer com couro se não for exportado, jogar no lixo? Tem a sua validade, porque a situação da indústria de calçados é a cada dia mais crítica e haverá sobra de couro no mercado interno. - Mas temos que ver esta questão sob ponto de vista global: Os rebanhos não estão aumentando na progressão da pressão demográfica – em outras palavras há cada vez mais pessoas do que cabeças de gado. Há também crescente melhora de condições de vida, com aumento de procura de mercadorias de maior valor, de maior conforto. Só na China há uma crescente classe média, já hoje estimada na ordem de 200 milhões de pessoas (um Brasil inteiro!), sem falar no ex-bloco soviético com prosperidade “nunca antes” experimentada.

Não parece lógico, nem justo ou comercial fornecer matéria prima barata, neste quadro mundial, aos nossos concorrentes diretos, pelo preço subsidiado pela taxação simbólica. Se o Brasil duplicar a taxação no primeiro momento haverá uma gritaria enorme, mas depois de algum tempo, tudo voltará ao normal. Porque aonde irão os concorrentes em busca da fonte substitutiva?

A argumentação dos curtidores goianos, em várias partes do documento é capciosa. Por exemplo, quando alegam que o Brasil exportou o maior volume de calçados justamente nos anos, em que o couro no mercado nacional obteve os preços mais altos. Mas na estatística apresentada esqueceram de colocar um dado dos mais importantes: a cotação do dólar. É este que determina o sucesso da exportação e não o preço do couro no mercado interno.

Do exposto no documento por eles se vê, que de Janeiro a Maio de 2007 a exportação do couro em crust (semi-acabado) aumentou 48,48 % para 2,105 milhões de peles. Provavelmente por dois motivos: nossos compradores não querem importar a poluição e num couro “crust” os defeitos são mais visíveis e a garantia de qualidade é maior.

Mas o que mais chama a atenção é o destino das exportações: levando se em consideração várias classificações de couro, a média dos couros exportados representa 80 % das exportações como destino China, Hong-Kong e Itália. Os dois primeiros são o mesmo destino, porque não há fábricas de expressão em Hong-Kong e Hong-Kong serve de entreposto comercial e logístico para a China continental. E a Itália como destino significa, pequeno consumo interno e o grosso em re-exportação, com o refinado acabamento italiano, para onde? Adivinhem! Para lá onde hoje trabalha a maioria dos modelistas e técnicos italianos: na China e Sudoeste asiático.

Repetindo o comentário do editor do Courobusiness, senhor Roberto Nogueira Ferreira, que resumiu em poucas palavras o dilema existente “O Brasil continuou exportando muito Wet-Blue, porque não há outra maneira de ser. O rebanho cresce, a importação de couro cresce, a exportação de calçados de couro cai, a demanda internacional de couro cresce...... E o Brasil, sem nenhum indicativo de uma política industrial séria, equilibrada e planejada, opta por arrecadar, em vez de – com esse mesmo recurso ou com recursos fiscais tradicionais – criar programas de estímulo de avanço tecnológico e comercial de quem só produz e exporta couro Wet-Blue. A ausência de um mínimo de política faz o país se consolidar como exportador de matéria-prima. Ao taxar, quem deveria ser punido pela inércia ganha (governo) e quem deveria ser estimulado (produtor) paga a conta”.

Não é só o produtor que paga a conta. No encontro de parlamentares gaúchos por ocasião da Fimec 2007, o presidente do Sindicato dos Sapateiros de Teutônia/RS revelou os números do desemprego no Vale do Taquari, que já atinge cerca de 10 mil famílias (Tecnicouro nº 4 maio/junho 2007).

Vamos continuar exportando matéria-prima para facilitar a vida dos nossos concorrentes? O importante, ao que parece, é o superávit na balança comercial. O resto, ora o resto!

Zdenek Pracuch