APRENDIZADO NA GESTÃO DAS EMPRESAS

Há tempos escrevi um artigo - Pouca eficiência administrativa - sobre o deficiente preparo dos herdeiros das empresas para a tarefa de gerenciamento. Recebi vários e-mails com sugestões, críticas e perguntas do que fazer para sanar esta deficiência. Só me resta repetir a frase de um educador alemão, que perguntado por uma mãe qual é o melhor método de ensino, respondeu que é dando exemplo.

Fui criado dentro da maior organização mundial na indústria de calçados, a Bata Shoe Organization, hoje com sede no Canadá, depois de ter sido desapropriada pelos comunistas na ex-Tchecoslováquia nos idos 1948. Foi uma escola absolutamente perfeita. Os métodos da Bata estão até hoje adotados por empresas não somente de calçados, mas de todos os ramos, porque os métodos de planejamento, de gestão, de produção e de controles podem ser aplicados em todos os ramos.

Fomos treinados ao mesmo tempo na escola e na fábrica, meio período em cada. Progresso tanto na escola como na fábrica era acompanhado pelos nossos educadores e mestres e quem não obtinha resultados satisfatórios era eliminado sem perdão.

Há setenta anos atrás já era combatida toda espécie de desperdício e a ênfase principal era sobre os desperdícios do tempo. A única commodity que não pode ser comprada. O tempo uma vez perdido está perdido para sempre. Na enorme parede da usina de eletricidade estava escrito em enormes letras: AGARRE O MOMENTO PELOS CABELOS! E esta filosofia era aplicada o tempo todo em todos os lugares na empresa.

O escritório do então chefe dr.Jan A. Bata era dentro do elevador de uns 20 metros quadrados, no edifício central de administração de 15 andares, que por muitos anos foi o prédio mais alto da Europa Central. Quando o dr. Bata queria fazer uma reunião com colaboradores, digamos da exportação, baixava o elevador para 4º andar. Para contabilidade, por exemplo, subia para 10º e assim ganhava tempo para ele e para os funcionários.

Nos telefones era aplicado um adesivo dizendo: “Quem disser alô será demitido!” A ordem era dizer logo o nome de quem atendeu. Nunca soube de que alguém tivesse sido demitido, mas era um lembrete que não era fácil de esquecer e lembrava nos sempre – tempo é dinheiro.

Naquele tempo o meio mais rápido de comunicação era o telegrama e telefone. Existia uma regra: a carta devia ser respondida por carta, telegrama por telegrama e telefonema por telefonema. Mesmo não tendo a resposta na hora, a pessoa deveria ser avisada que dentro de tantas horas ou tantos dias será dado retorno, e dizer o motivo.

Existe melhor maneira de dinamizar negócios? Nunca poderia acontecer o que me aconteceu no ano passado, quando na Polônia exigi mais ação do representante polonês e como resposta ouvi: “O que quer que eu faça, se há três semanas enviei um e-mail pedindo informação e ainda não recebi resposta!

Lembro me muitas vezes do Bata, quando vejo as mesas das nossas fábricas atulhadas de papel, disputando espaço com computador. Fico a pensar de como devem estar as cabeças dos dirigentes e de funcionários se as mesas deles apresentam este caos. – No Bata as escrivaninhas tinham uma gaveta só, sem fechadura, para guardar utensílios de escrita ou bloco de anotações. Papéis iam para arquivo no fim do dia, todos processados. A mesa, no fim do expediente, devia estar limpa.

Muitos anos depois vi o mesmo sistema na Coréia do Sul e os coreanos hoje devem esta ensinando esta maneira de trabalhar aos chineses, para onde emigraram, praticamente, todas as fábricas coreanas.

Os métodos de trabalho na administração da empresa, como descrevi acima foram praticados já a partir da década dos trinta do século passado, quando a fábrica matriz produzia 220.000 pares de calçados de todos os tipos por dia. Na época em que nem se sonhava com computadores. Calculadoras eram mecânicas da marca Facit e máquinas de somar eram as Olivetti de manivela – alguém se lembra?

Basta dizer que o avião da Bata levava 4 dias para voar da Tchecoslováquia para a Índia (não se voava á noite no Oriente) onde existia e ainda existe uma das maiores fábricas de calçados do mundo na cidade de Batanagar (cidade do Bata).

Lamento por nossos jovens que não terão oportunidade de absorver a filosofia de um trabalho assim na prática. Faculdades de administração fazem um bom trabalho, mas educar pelo exemplo é melhor, como disse o pedagogo alemão. - O darwinismo na indústria é implacável. Só os mais capazes irão sobreviver.

Zdenek Pracuch