GUERRA AOS DESPERDÍCIOS

Acabo de ministrar mais um curso de Cálculo de Consumo de Materiais para Calçados, em menos de dois meses. Coisa curiosa. Há uns dois anos, quase não havia interesse pelo assunto e, de repente, acontece uma afluência de pessoas interessadas em aprender como calcular e, principalmente, como economizar os materiais. De modo, que o próximo curso já está programado (e lotado) e, pode ser, que até o fim do ano ainda virá mais uma turma para se aparelhar e levar para a Couromoda os cálculos feitos com todo o rigor e técnica.

É gratificante ver, que os empresários estão começando a entender a importância da montagem de uma infra-estrutura gerencial que os habilite a enfrentar a concorrência cada vez mais acirrada e melhor preparada. – Mas, calcular o consumo é só o primeiro passo para a eficiência. É um passo necessário para controlar o gasto de material, para aferir a eficácia dos cortadores enfim para se tornar mais competitivo, mas não basta. Há mais a ser observado.

Foi o que verifiquei acompanhando os desenhos dos alunos durante o curso. O grande desperdício causado pela falta de uma modelagem mais técnica e consciente da economia. - Cada aluno traz, para as aulas, todas as peças de um modelo de calçado recortadas em cartolina, para fazer o desenho de cada uma delas separadamente e assim poder calcular a área individual de cada uma junto com o retalho condicionado pela própria configuração da peça. O retalho que chamamos de “inevitável” porque não há cortador no mundo que possa economizar este material.

O que, porém, chamou a minha atenção, foi o fato de que em alguns modelos de algumas indústrias tínhamos três e até quatro materiais remontados um em cima do outro, num desperdício mais do que evidente. Quando questionados os portadores destes modelos geralmente argumentavam que, assim, o modelo ficava mais “armado” e não deformava com facilidade.

Acredito, que as armaduras eram grande moda na época das Cruzadas, mas não entendo muito bem o que teriam em comum, hoje, com calçado esportivo. Sem dúvida o calçado deve ficar armado, mas para isso usamos outros meios, mais práticos e principalmente muito mais econômicos. A própria modelagem deve contribuir para que isso aconteça. Não vejo sentido nenhum em colocar três camadas de, por exemplo, camurção, remontadas uma em cima da outra.

A guerra aos desperdícios não começa com acompanhamento dos resultados do cortador. Começa muito antes, começa na própria concepção do modelo. Para que gastar materiais, que não tem função alguma, que não serão vistos e que irão aumentar o peso e o custo? - É interessante, e as fábricas bem estruturadas praticam isso, que não se corta nem o pé piloto, sem antes os recortes de cartolina passarem pela mesa de desenho do calculista para ver se não haverá desperdício pela falta de encaixe racional das peças e aproveitamento tembém racional dos materiais.

Esta preocupação é seguida pela análise de sobreposição de peças (vide artigo Modelagem Técnica na pagina Tecnologia) com o desenho, que na engenharia leva o nome de “blue print”, por causa da tonalidade azulada das cópias heliográficas. Neste desenho fica visível qualquer desperdício não funcional do material, que é corrigido ainda antes de se cortar o protótipo e, muito antes de se encomendar o ferramental. A engenharia metalúrgica não poderia funcionar sem as plantas “blue print”. Porque não apreender com ela, já que a indústria de calçados está virando cada dia mais uma engenharia de precisão?

Quantas vezes vemos as coleções de facas que nem chegam a ser usadas, porque o modelo foi modificado ou, pior ainda, acompanhar o sofrimento da montagem tentando ajustar durante a produção os modelos mal concebidos. Nem é possível quantificar o custo deste processo falho e que seria tão fácil de evitar.

O tempo, quando a clientela não mais pagará os desperdícios causados pela má gestão ou falta de técnica a partir da própria construção dos modelos, já chegou. Será que é tão difícil adaptar-se a esta nova realidade?

Zdenek Pracuch