SERÁ QUE ESTOU GANHANDO ?
É incrível, mas com toda a parafernália informática hoje disponível e em uso, exista um sem número de empresas que não sabem a quantas andam. Sobrou dinheiro para comprar um carro zero? Sobrou dinheiro para poder comprar uma máquina mais moderna, sobrou dinheiro para fazer uma viagem de férias, quem sabe até a Europa? Então está tudo bem, a empresa está lucrativa!
Infelizmente, nada mais distante da realidade. Muitos dos contadores formados e com longa prática contábil, não tem condições de dizer com segurança e precisão, se a empresa está ganhando ou perdendo dinheiro e, em quanto isto importa, sem fazer um “balanço”.
Pode até ser que este balanço vai demonstrar um quadro clínico
irreversível quando, se tivesse sido diagnosticado em tempo, poderia ser curado até com relativa facilidade. Já contei nesta coluna o caso de uma empresa que sangrou mais da metade do capital de giro em menos de dois meses (Contole do capital de giro, leia aqui e Contalibilidade de resultados, leia aqui). E esta empresa já tinha implantado todo ferramental para acompanhar os resultados econômicos, ou seja, lucros ou prejuízos e a evolução e involução do capital de giro com acompanhamento semanal. Mas descuidou e por motivos vários atrasou o levantamento semanal
Descuidou durante menos de dois meses e levou um susto daqueles, quando descobriu que o capital de giro aumentado e acumulado durante quase um ano caiu para metade em menos de dois meses. A dinâmica da vida empresarial, hoje, não permite mais uma administração pela intuição, nem pela experiência, nem pelo arrojo e muito menos na confiança que “sempre deu certo e desta vez também dará”.
A vida das empresas é hoje ditada pelos números, pelos dados, e quanto mais precisos e quanto mais freqüentes, melhor. Mas não só os dados podem orientar o empresário. Os dados são uma parte importante para a formação da estratégia empresarial, das definições dos rumos e das atividades. Mas como disse são uma parte importante, mas somente uma parte. A outra parte é o acompanhamento crítico da situação econômico-financeira tanto nacional como a global.
Vejo hoje as previsões nas empresas para o novo ano. Muita gente já ouviu falar em planejamento estratégico a curto, médio e longo prazo. E muita gente está tentada a praticá-lo. Parabéns. Mas muito cuidado. O planejamento não é o que os anglófonos chamam de “wishfull thinking” – tomara que seja! O planejamento deve se alicerçar em bases sólidas, em informações colhidas em fontes variadas para que possam cobrir o universo das opções disponíveis.
Mas o que se vê é o planejamento imediatista com base no comportamento do mercado do momento, com base na entrada dos pedidos e nas informações fornecidas pelos representantes comerciais, uma fonte mais que duvidosa, que analisa a situação do ponto de vista pessoal e não tem a mínima preocupação com a empresa.
Análise fria e objetiva da economia mundial e da nacional também não é nada animadora. A locomotiva da economia mundial do momento, a China, está diminuindo sua velocidade. Há uma ameaça de inflação mundial, com emissão de dinheiro sem lastro e com acumulo de créditos a descoberto ou declaradamente podres. A reunião do G-20 como era de se esperar não resultou em nada. Resultou, sim, em demonstração de filosofia de cada um por si e ninguém por ninguém!
A indústria nacional está dando sinais de enfraquecimento, com uma ameaça séria de desindustrialização provocada pelo elevado volume de importações, motivadas pelo Real forte, esta valorização devido ao ingresso de enormes somas de capital especulativo e nesta ciranda o Brasil está retornando ao papel de mero exportador de matérias primas e de commodities.
A indústria de calçados, evidentemente, está inserida neste quadro, infelizmente, de maneira negativa. Desindustrialização significa desemprego, menos dinheiro na mão dos consumidores e, por mais que tentaremos defender-nos dos importados, estes terão presença cada vez maior nas nossas vidas. É simples, nosso maior cliente nas exportações no momento é a China e teremos que mantê-la satisfeita e quietinha, mesmo a custa dos calçadistas, os eternos reclamantes, na opinião do governo.
Neste quadro é que se insere a importância de uma boa gestão econômica, de uma gestão que acompanha em intervalos curtos, semanais, a lucratividade e a evolução do capital, para tomar as providências corretivas necessárias na hora e não quando já é tarde demais.
Poucas são as empresas hoje, que conseguem e sabem fazer esta tarefa, embora seja de uma simplicidade espantosa. E para executá-la não é preciso nenhum programa específico, nenhum sistema sofisticado. Basta dizer, que o introduzi (sistema Bata) e funcionou na Samello em Franca na década dos anos sessenta, quando nem calculadoras eletrônicas tínhamos, quanto mais os computadores! Mas sabíamos toda semana o resultado de cada centro de custos, que poderia ser até o ambulatório ou transportes! E na base destes controles que se criou aquela empresa, que naquela época servia de modelo para tantas outras.
Hoje em dia, com tantas variáveis desconhecidas na equação econômica, não é importante saber o quanto estamos ganhando, mas até se é que estamos ganhando! Porque por mais que os esquerdinhas esperneiem contra os lucros, como resultado da exploração dos homens, sem os lucros as empresas definham até morrer. Donde tomar dinheiro para investir, para modernizar, para crescer e criar mais empregos? Só e tão somente dos lucros!
Precisamos ter resultados do trabalho. Precisamos ganhar. Lucro não é imoral. Lucro é a garantia de vida.
Zdenek Pracuch
03/01/11