GESTÃO DE CUSTOS - Parte IV

Na coluna GESTÃO DE CUSTOS – Parte II – leia aqui, prometi explicar como calcular o lucro administrado, que deveria fazer parte do custo como um insumo qualquer, de acordo com a sugestão do Peter Drucker. Pois vamos à esta tarefa, passo a passo.

Precisamos, antes de tudo, definir o quanto a empresa deverá lucrar no próximo semestre (como faz Bata Shoe Corporation) ou no próximo exercício, como podem fazer os nossos empresários. Não basta dizer que a empresa irá trabalhar com lucro. Temos que quantificar o volume do lucro necessário. E aí surge a pergunta de como definir o montante do lucro? A tarefa em si já nos leva ao planejamento, este órfão tão negligenciado na gestão das empresas.

Primeiro: temos que ter uma idéia clara sobre os investimentos que pretendemos fazer no exercício.  Devemos saber quantos compromissos entre financiamentos, leasing etc, que não podemos colocar na planilha de custos e que tem de ser pagos do lucro, totalizam no exercício. E, finalmente, o que queremos levar como lucro real, palpável, no fim do ano para casa, para comprar ou gastar com o que for que seja. Repito, tudo o que não pode constar da planilha de custos, mas que faz parte da vida econômica e financeira da empresa.

Segundo: Temos que ter uma definição clara do que será produzido e vendido no exercício. Isso já foi abordado nas colunas anteriores. Só para relembrar: a produção prevista tem que ser realista, até um pouquinho pessimista. Porque será acompanhada e  a realização verificada semanalmente. O mesmo vale para as vendas, por quantidades e por linhas de produto. Por aí, já temos um subproduto que nos traz o cálculo do lucro administrado, ou seja, um acompanhamento em tempo real sobre a sua execução, tendo tempo hábil para qualquer ação corretiva se o resultado não acompanhar o previsto.

Terceiro: se o nosso produto for uniforme, por exemplo, tênis masculino, ou calçado de crianças sem grandes modificações nos solados ou cabedais, basta dividir o lucro previsto pelo número de pares  a serem produzidos e temos como resultado o lucro por par que deverá constar da planilha de custos, entre os materiais e insumos com uma denominação neutra – reserva para variação de preços, por exemplo.

Quarto: se o nosso produto não for uniforme, por exemplo, sandália rasteira e bota alta feminina, o cálculo será um pouco mais sofisticado. Escolhemos o modelo básico de cada linha e calcularemos o gasto da matéria prima e de insumos por par. Multiplicaremos este valor pelo número de pares previstos para produzir nesta linha e teremos o valor total de compras de materiais e insumos. O valor total de compras deve ser a soma de compras para todas as linhas  O cálculo do lucro administrado será feito dividindo o lucro previsto pelo valor total de compras (exemplo: Valor Lucro R$ 600.000,00 dividido por Valor Materiais R$ 4.736.160,00 = R$ 0,1266) e o resultado de R$ 0,1266 será considerado como lucro administrado para cada Real da planilha de custos referente aos materiais e insumos. Deste modo o lucro administrado será proporcional a cada linha de produto.

Quinto: o mesmo raciocínio pode ser aplicado caso se use o faturamento como fator de cálculo. O lucro pretendido será dividido pelo faturamento previsto e o resultado será acrescentado para cada real faturado, como lucro administrado.

É importante observar que até agora estivemos falando do lucro administrado, ou seja, o lucro que a empresa tem que conseguir. Isto não impede que a empresa calcule o lucro que chamamos de lucro eventual, pelos métodos como sempre calculou, ou seja, depois da soma de todos os itens do custo, acrescentar uma porcentagem hipotética a título de lucro.

Se o mercado aceitar, se a concorrência permitir, nada mais natural que vender pelo melhor preço possível, mais ainda sabendo, que o lucro administrado já está embutido no custo.

Esta política de definição do preço de venda, com lucro que já está embutido no custo do produto nos permite uma segurança muito maior na hora de negociar algum preço ou condições especiais, sabendo, que o lucro que a empresa deverá atingir para cumprir as metas de investimento e de pagamento de compromissos financeiros já está assegurado. Sem falar na possibilidade de abrir a planilha de custos para o interlocutor, para demonstrar que estaríamos vendendo pelo custo, sem remuneração nenhuma.

A perfeita gestão de custos e a formação de preço de venda, depois de custos sob controle, devidamente expurgados e controlados é o roteiro de sobrevivência nos tempos vindouros. Nunca podemos esquecer que hoje estamos competindo com o mundo inteiro, que estamos competindo com concorrentes que estão armados com as tecnologias e métodos de gestão de última geração e que irão fazer o impossível para conquistar e manter a sua fatia do mercado global.

Não vamos viver de ilusão, que alguma tarifa anti-dumping irá ser a nossa tábua de salvação. O comércio internacional é uma via de duas mãos. Ainda outro dia, no Bom Dia Brasil a comentarista Miriam Leitão comentando o superávit na balança comercial do ano 2011, mostrou que a China foi responsável por 42 % de importações do total exportado pelo Brasil. Será que vamos desafiar o gigante que garante a nossa balança de pagamentos  por causa da indústria de calçados?  Dá para duvidar.

Zdenek Pracuch
23/01/12