NOSSA INDÚSTRIA É POBRE
Muita gente me pergunta sobre as razões da mortalidade que se verifica nos últimos tempos entre os grandes da indústria de calçados. O nível da mortandade está onde sempre esteve. Basta ler o livro Couro cru da autoria de Antonio Coutinho, para verificar que, pelo menos em Franca, isto não constitui nenhuma novidade.
Existem vários fatores que contribuem para a fragilidade das indústrias de calçados, mas o fator mais importante é a baixa lucratividade deste ramo industrial, se comparado com as outras indústrias. E, neste caso, qualquer descuido, qualquer falha na gestão pode ser fatal. Ouvi do próprio “Rei dos calçados” Thomas Bata, quando me perguntou sobre Franca, que conheceu ao ser convidado pelo Wilson S. de Mello, e comentando alguns dos hábitos dos empresários locais disse (em tcheco – a tradução livre é minha):
“Será que esta gente ainda não entendeu que a nossa indústria é pobre? Que ela é feita de milímetros, gramas e segundos? E, ai de quem desprezar isso!” Ouvir esta definição de alguém cujas fábricas produzem mais de um milhão de pares por dia, é algo que deve ser levado a sério. O homem cujas fábricas estão nos cinco continentes (a fábrica de Nova Zelândia pode ser considerada australiana) não possui jatinho executivo e viaja em aviões da carreira. Só o pensamento de deixar a tripulação à toa durante alguma semana enquanto visita alguma fábrica, deve deixar o cabelo do TB de pé!
A gestão de uma indústria de calçados não é fácil. Dada a baixa lucratividade e concorrência predatória dos fabricos do fundo de quintal a gestão é um ato de malabarismo sobre o fio da navalha, onde o ponto crítico está nas compras de materiais, nos desperdícios da produção e na gestão comercial com descontos abusivos e prazos intermináveis. Ou seja, durante o tempo todo do ciclo do produto. Alguma dúvida porque tantos fracassam?
Já disse uma vez, que os nossos dirigentes pilotam um Boeing, sem rádio, sem radar, num nevoeiro, sem até saber quanto combustível tem a bordo. Ato de heroísmo suicida. Por isso muitos são pegos de surpresa, já que não possuem os dados mais elementares para se orientar. Nossos contadores não foram treinados para tanto. Fazem belos relatórios sobre índices de liquidez, sobre retorno sobre os ativos, porcentagens disso e daquilo, mas poucos são capazes de avaliar a evolução ou involução do capital de giro, um dado essencial para a saúde da empresa. Da mesma maneira como não sabem dizer se do ponto de vista econômico a fábrica produz riqueza ou prejuízo, porque o fluxo de caixa e títulos a receber e a pagar, neste ponto, não dizem nada!
Pronto. Agora comprei a briga com os contadores. Já tenho uma com modelistas e outra com cronoanalistas – mais uma. Dizem que um pouco mais de adrenalina no sistema até que faz bem!
Mas posso provar o que afirmei acima. Na década dos sessenta, quando Franca inteira acompanhou e tentou imitar a ascensão da Saméllo, esta ascensão não foi gratuita e caso da sorte do Wilson. Foi resultado da implantação do Sistema Bata (olha Bata outra vez!) de contabilidade industrial, onde verificávamos a cada semana a lucratividade (ou não) de cada centro de custos. Até do ambulatório ou do departamento de transporte. O sistema era tão refinado, que cada departamento tinha que apresentar resultado positivo, cobrando pelos serviços prestados aos outros centros, como se cada unidade fosse uma firma independente. - Chamou mecânico da manutenção? Tudo bem, mas depois do serviço feito o mecânico apresentou a conta para assinar. A manutenção também tinha que ter a vida própria e lucrar. - Detalhes? Perguntem ao Eduardo Belotti Filho, um dos artífices da implantação.
Nalgum ponto do tempo e do espaço tudo isso foi perdido na irrefreável busca do algo novo, de algo mais moderno. Vieram nomes de consultorias internacionais, mas que nunca pisaram numa fábrica de calçados e tentaram reinventar a roda. O resultado está á vista de qualquer um.
Nossa indústria é pobre. A lucratividade é baixa. A concorrência de baixo nível é predatória. Qual é a saída? Fugir para o alto. Produzir aquilo, que os despreparados, por mais que tentem copiar, não conseguirão. Produzir com qualidade absoluta, dos melhores materiais disponíveis e ter um serviço impecável a começar pelo atendimento no telefone. E, principalmente, evitar todo e qualquer tipo de desperdício.
Lembrem-se sempre: milímetros, gramas e segundos!
Zdenek Pracuch