HÁ SAÍDA PARA O SETOR COUREIRO-CALÇADISTA ?

Poucos artigos que escrevi despertaram tanta repercussão, como o artigo Sinal amarelo publicado no jornal A Voz de Nova Serrana. Fui indagado pessoalmente, por telefone, por e-mail, até que ponto a ação desastrosa do governo brasileiro, reconhecendo China como nação de livre comércio afetará o nosso ramo industrial. Bem, confirmo tudo o que escrevi.

Por isso, foi com grande satisfação, que li no último número da revista Tecnicouro (pág. 130) o artigo do diretor superintendente da Braspelco S/A, Sr. Arnaldo José Frizzo Filho, um dos mais lúcidos, esclarecidos e arrojados empresários do setor coureiro e dentro de pouco tempo também do setor calçadista.

Após tecer comentários sobre as políticas incompreensíveis do passado, diz num certo parágrafo: "Somos convidados a nos instalar na China, sem nada investir. Tudo a fundo perdido. Basta aportarmos matéria-prima e nossa tecnologia e gerar muitos empregos. Para a milenar sabedoria chinesa isto é quase tudo. Esses são alguns dos maiores reconhecimentos que poderíamos receber." (Reconhecimento do sucesso e da capacidade empresarial do grupo Braspelco - o comentário é meu.)

Posso confirmar, que não se trata de nenhuma exceção. Encontrei na China um fabricante de calçados de Taiwan e, quando estranhei a presença dele no território da China comunista, riu da minha ingenuidade: "Política é para políticos, disse-me, nós somos businessmen. Este prédio da fábrica (de cinco andares e ele morando na cobertura) recebi de graça, para criar 1.200 empregos em cinco anos. Trouxe o equipamento e cinco instrutores de Taiwan e mais nada. Estou aqui há dois anos e já empreguei 800. Vou cumprir o prometido com a maior facilidade!"

Arnaldo em momento algum disse que aceitou ou vai aceitar a oferta. Diz que quer criar mais 3.000 empregos e aumentar exportações em 100 %. - Pode ser que ainda não tenha avaliado propriamente a ameaça chinesa, ou confia na promessa do ministro Furlan, que o governo vai "defender" os setores ameaçados. Se a defesa for feita como até agora, adeus. A política terceiro-mundista baseada em conceitos sócio-políticos ultrapassados leva o Brasil a ceder em tudo sem levar nada em troca para conseguir uma quimérica liderança da América do Sul. Vejam só as negociações tímidas com Argentina.

Economia e política não se misturam. Chineses nos mostram o que é pragmatismo. Economia estatizada, com o Estado onipotente controlando tudo, mas quando convém são capazes de convencer, a quem quer ser convencido, de que são uma economia de mercado livre.

Como se esta miopia na política econômica externa não bastasse, temos ainda um confisco disfarçado em tributação. "Até quando continuaremos sujeitos a uma carga tributária insuportável?" pergunta o presidente do Instituto Brasileiro do Planejamento Tributário (IBPT) Gilberto Amaral. Sabiam que dentro do calçado está embutida a carga tributária de 37,37 % segundo o IBPT? Podia ser pior porque água está onerada em 45,11 % e a gasolina nossa de cada dia 53,03 % !

São números de estarrecer, quando comparamos o que estamos recebendo em troca. Temos o sistema tributário mais complexo do mundo com 61 tributos, impostos, taxas e contribuições. Nosso vizinho mais próximo com 45 tributos é a africana Quênia. Até que enfim o Brasil conseguiu ser líder em alguma coisa do terceiro mundo. Mas o pior de tudo, ainda segundo Amaral, é o desvio de recursos dos cofres públicos. Dos R$ 546 bilhões arrecadados no ano passado, R$ 170 bilhões (32%) foram desviados. Para este ano estão previstos desvios da ordem de R$ 208 bilhões.

O governo arrecada mas nem pensa em pagar o que deve. Outro empresário esclarecido e destemido está conduzindo uma campanha solitária contra a voracidade deste monstro que se chama Receita Federal, para receber o que é de pleno direito e o que recolheu conforme determinado. Até agora afora uns afagos, o esforço dele não resultou em nada. Por que é uma campanha solitária? Porque a maior parte dos empresários quer ver o fiscal o mais longe possível das suas portas e prefere perder o que poderia ser restituído.

Com esta voracidade fiscal, legislativa e tributária como é que vamos competir com uma indústria proveniente duma nação, onde o pagamento de impostos é simbólico, onde energia e comunicações têm custos irrisórios e onde a filosofia de empreender se focaliza num único ponto: criar empregos, que por sua vez criarão riquezas.

Até quando um Arnaldo Frizzo e outros empresários, embora imbuídos do mais aceso patriotismo, vão resistir aos convites irrecusáveis e passsarão a vender no Brasil, produtos produzidos por eles, Made in China por preços pelo menos 30 % mais baratos, só pelo fato de serem desonerados dos impostos? O tempo o dirá. A globalização está entre nós.

Estaremos preparados para enfrentá-la? Com os costumeiros desperdícios, com a falta de produtividade, sem planejamento, com falta de qualidade, sem controle e cálculo adequado de custos a competição será muito, muito difícil.


Zdenek Pracuch