E A VIDA CONTINUA ...

Terminou mais uma Couromoda, há gente satisfeita e há gente que saiu decepcionada com os resultados, enfim, nada de novo. Talvez, a única coisa a comentar é que, cada vez mais, está demonstrado, que as Feiras, que antigamente eram motor que movia a indústria por meses tornaram-se gradativamente Feiras de promoções mercadológicas e de contatos que, no futuro, podem ou não resultar em negócios.

Pouca coisa há a comentar sobre o panorama geral. Na minha ultima coluna falei sobre as previsões (Previsões ? - leia aqui). Poucos economistas têm coragem de assumir que teremos pela frente um ano difícil, perfeitamente dentro da lógica da economia global. Estamos assistindo a uma bela campanha promocional da Dona Dilma, com a redução das tarifas de energia elétrica. Pode ter um impacto sensível no custo do alumínio, da celulose ou na conta dos frigoríficos.

Mas para indústria de calçados, a diferença será insignificante na formação de preços, como é fácil de conferir em cada empresa que possua pelo menos os rudimentos de um cálculo de custos. E não há a menor dúvida, que o aumento de gasolina e diesel, para evitar colapso da Petrobrás, irá anular qualquer economia via custo da energia elétrica.

O fato é, que nem os empresários calçadistas, sem falar nos outros, se sentem desorientados. É o próprio governo que não tem uma definição clara daquilo onde quer chegar. Combater a pobreza, fazer um Brasil maior são metas lindas, porém, o único caminho a chegar lá é via produção. E essa está pela hora da morte. Um "Pibinho" de um por cento, e ainda assim só foi conseguido, porque temos uma grande agroindústria. A indústria propriamente dita encolheu 3,4 % mas disso não se fala. Como será a situação do emprego em 2013? Os acontecimentos na GM em São José dos Campo são sintomáticos.

Infelizmente a ideologia esquerdista está prevalecendo, o lucro e o capital ainda é considerado como inimigo do povo e merece ser combatido, cercado e aniquilado. Antes da primeira eleição do ex-presidente, havia um pânico generalizado entre os empresários. Morei na Suécia e trabalhei naquela época em Portugal e recebi consultas de empresários francanos sobre a possível transferência das empresas deles para Europa.

Mas o ex-presidente se mostrou mais pragmático que ideólogo. Jogou fora toda retórica socialista, esquerdinha e assumiu a “herança bendita” do FHC. Parece, até agora, pelo menos que Dona Dilma ainda é prisioneira das ideologias pelas quais lutava de arma em punho. A mente estatizante, intervenções diretas na economia de mercado, que transmitem ao mundo de investidores a imagem de um estado sem a segurança jurídica e robustez de instituições democráticas.

O economista Yves Gandra, que não precisa de apresentação, recentemente escreveu no Estadão sobre um almoço que teve com o ex-presidente de Portugal Mário Soares que se seguiu a uma conferência na Universidade de Coimbra, depois de uma observação pitoresca de que administrara Portugal sem ser influenciado por ideologias.

Disse-me ele: "O povo não come ideologia, come pão.” E para que coma pão não é necessária apenas uma política de incentivo ao consumo, mas, principalmente – que inexiste -, uma filosofia de gerar produção, competitividade, tecnologia, para podermos, no futuro manter o consumo, e não vê-lo reduzido, por falta de crescimento.

Palavras do Yves Gandra que resumem o roteiro de ação para todos os empresários calçadistas. Destaco duas palavras – produção e competitividade. Duas palavras, embora na boca de todo mundo, na prática quase desconhecidas na sua aplicação. Nossas fábricas (e não só de calçados!) são um retrato vivo de desperdícios de toda espécie, desde a matéria prima, passando por mão-de-obra, tempos, comercialização e gestão.

Hoje estamos competindo com o mundo inteiro em todos os campos. Temos a desvantagem do passado que está influenciando a gestão e o comportamento dos dirigentes. As famosas frases – sempre fizemos assim e deu certo! Para que mudar? – Podem servir de epitáfio na pedra tumular de muitas empresas, que hoje não estão mais entre nós.

Meus parabéns aos que venderam bem na Couromoda. Mas não se iludam, Vocês ganharam uma batalha. A guerra continua. E a Vocês que não se deram tão bem, meus pêsames, mas tirem como a lição, que há necessidade de mudanças profundas, principalmente, na mentalidade gestora.

Zdenek Pracuch
04/02/13