PRODUTIVIDADE - 4
Mencionei na coluna anterior, Produtividade - 3, leia aqui, o fato que a produtividade do operário americano é cinco vezes maior que a do brasileiro. Há muitos fatores em jogo a começar pelo ensino que deixa muito a desejar, razões culturais, étnicas ou falta de orientação por parte dos responsáveis que, por sua vez, são vítimas dos mesmos fatores.
O “ativo intangível” de cada empresa é um fator preponderante na avaliação da produtividade. Podemos criar condições inéditas na gestão das nossas empresas, mas se o operário ou até um funcionário graduado, não tiver condições de executá-las, de pouca valia serão.
No Estadão do dia 26.03.2013 há uma notícia e um comentário, que se complementam. A notícia nos informa que há falta de 8.000 professores e instrutores nas 817 escolas técnicas ou profissionais federais. E entre as linhas está dito que a qualificação dos que estão na ativa, também não é lá essa coisa.
Em comentário o prof. José Pastore, prestigiado estudioso e analista das relações de trabalho, sem se referir especificamente a indústria de calçados menciona, entre outros males, a falta de qualificação de mão de obra pela excessiva rotatividade, causada pela legislação que premia o desemprego, proporcionando um ganho extra, quando existem empresários, que simplesmente não registram o novo contrato de trabalho, estimulando a troca frequente de empregador. Ainda mais quando estimulada pela falta de mão de obra.
Já ouvi muitas vezes no decorrer da vida profissional de como seria maravilhoso ser empresário, se não tivesse que lidar com o elemento humano! Mas, não há como escapar. Por mais que a tecnologia nos faça economizar e eliminar a mão de obra braçal, esta ainda é indispensável. Até os donos de start-ups que começam com um, dois ou três funcionários padecem deste mal. O que, então, dizer das empresas com centenas ou milhares de funcionários, como o é o caso da indústria de calçados.
No livro Management in 10 words (Gerenciamento em 10 palavras - em tradução livre) o criador da rede de supermercados britânicos Tesco com 6.000 lojas em 14 paises, Sir Terry Leahy (mais uma vez meu obrigado ao senhor Ricardo Delbem da Botinas Primavera pelo presente que agora partilho com os meus leitores) fala sobre as relações de trabalho.
Quando uma nova legislação no Reino Unido permitia mais liberdade com “atestados médicos" o absenteísmo pulou de 4% para 7%, ameaçando o bom funcionamento das lojas e prejudicando aqueles que não se beneficiavam deste expediente para faltar ao serviço. A Tesco começou analisar o relacionamento com a força de trabalho, negligenciado antes, num período de recessão onde os empregos eram um premio.
Sir Leahy descobriu o óbvio: as pessoas requerem somente quatro atitudes dos seus superiores. 1º Ter um trabalho interessante, 2º serem tratadas com respeito, 3º ter chance de subir na escala hierárquica, ou seja, ganhar uma promoção, seja de posição ou salarial e, finalmente, 4º ter um superior prestativo que oferece e presta ajuda quando necessária.
Uma observação interessante, neste sentido, é também a miopia da maioria dos empresários. Só estão preocupados com a produção de ontem e com as vendas de amanhã. - Isto não lhes lembra alguma coisa ou alguém? Medidas de longo alcance, medidas que requerem uma maturação de meses e as vezes de anos, parecem existir numa outra constelação além da Via Láctea.
Um empresário consciente, com ajuda da seleção por psicólogo(a), pode ajudar a formar o seu quadro de supervisores, capacitados acima da média, ajudando nas mensalidades de faculdade de administração ou de engenharia de produção. Não é custo, é investimento. – Mas, depois de formado ele me larga e vai para outro lugar! – De modo algum, se o clima da empresa for bom e houver chance de promoção.
Quantas ótimas funcionárias ou operárias estão em casa, porque não tem quem possa cuidar dos filhos menores delas? Porque não montar uma creche diária onde as crianças podem ter cuidados profissionais de saúde e educacionais tipo pré-escola? Com custo mínimo em função do custo do absenteísmo ou de treinamento de adolescentes cuja cabeça está muito mais para baladas de que para produtividade, podemos ter funcionárias dedicadas, que saberão avaliar o que a empresa proporciona e o absenteísmo causado aos problemas com filhos será eliminado.
É sobre deste tipo de ação que sir Leahy se refere quando fala de um trabalho interessante e o tratamento com respeito. E comprova com números. Absenteísmo quase zerado, e vendas 2,3 vezes maiores por funcionário em comparação com o bicho papão do mercado chamado Walmart, foi o resultado das políticas implantadas sob estes critérios.
A produtividade tem vários aspectos, todos eles importantes. Mas na minha opinião pessoal, o fator humano é o mais decisivo, para o fato se a empresa terá produtividade alta ou baixa. Reconheço que é o fator mais difícil de ser tratado com a dificuldade crescendo ainda mais, observando, que este assunto é tratado marginalmente, quando se trata de gestão. Indicadores do caminho não faltam. O que falta é a vontade de observar e aplicá-los.
(Artigos anteriores desta série: Produtividade - 1 - leia aqui, Produtividade - 2 - leia aqui e Produtividade - 3 - leia aqui)
Zdenek Pracuch
13/05/13 (edição póstuma)